Segunda feira de carnaval e onde diabos está o espírito “carnavalesco”?
Deve ter ido embora junto com o espírito de Natal e com o espírito de todas as outras comemorações.
Não sei se é a idade ou o que, mas mais e mais as datas comemorativas não tem passado de dias marcados em vermelho no calendário.
Lembro dos carnavais de outrora. Na infância sempre esperando pela matine de carnaval nos clubes, onde eu invariavelmente era uma índia ou uma cigana.
E como me divertia. Nem que fosse com a inocente brincadeira de juntar o máximo de confetes e serpentina no chão.
Depois vieram os carnavais de rua, quando eu já era quase uma mocinha, ainda seguindo com a indumentária de cigana que por vezes mais parecia uma mulher pirata.
Mas o mais divertido nessa época já nem era o meu carnaval. E sim o carnaval dos meus vizinhos.
Mamãe os maquiava como damas. E que vaidosas eles eram, não queriam aquela maquiagem escrachada. Queriam ficar bonitas, meninas da noite.
Eu achava aquilo divino. Meus vizinhos adolescentes bonitinhos se transformando em putas ditosas com vestidos roubados das mães. Incrível como meus olhinhos brilhavam ao ver o vizinho loiro e cabeludo num pequeno vestido vermelho…
Bons tempos esses. Até que os carnavais de rua se acabaram por aqui, uma das minhas primeiras tristezas carnavalescas.
Já não tinha mais onde pular, não tinha mais meus vizinhos vestidos de mulher, contudo ainda haviam as transmissões pela TV.
Não que fosse fã de samba, mas sempre achei os desfiles das escolas magnífico. Varava a noite assistindo, torcendo. E essa emoção só se acabava na quarta feira de cinzas, quando eu ficava na frente da TV com o coração na mão, esperando ansiosamente por cada nota.
Sempre queria que a Mangueira ou a Beija-Flor ganhassem. Eram (são?) as escolas do meu coração. Embora, sensibilizada por um enredo, sempre tivesse uma terceira ou quarta favoritas.
O que não podia, de jeito algum, era a Imperatriz Leopoldinense ganhar. E ela sempre ganhava, para minha tristeza.
Não gostava dessa escola. Achava pomposa demais, técnica demais, sem emoção demais. Nutria uma grande aversão por ela. Sempre assistindo aos seus desfiles com olhos agourentos, torcendo para que um carro enguiçasse, algo queimasse… enfim, para que tudo desse errado. Coisa de mal torcedor.
Então isso também foi passando. De desfiles inteiros, passei a ver só os compactos. Na quarta feira de cinzas ligava a TV apenas no final das apurações.
E agora? Só vi o desfile da Porto da Pedra por saber que conhecidos meus estariam em um dos carros. Não faço idéia dos temas dos Samba Enredo das outras escolas.
O carnaval de rua voltou, mas todos estão velhos demais para isso. Meus vizinhos adolescentes hoje são homens casados, alguns já com filhos. Sérios demais para uma meia fina e um pouco de batom.
Queria ir ao Pop Gay, um espetaculo divertido e curioso, onde elegem uma rainha que pode ser tanto uma Drag quanto uma travesti. Entretanto, não tenho companhia para ir.
Meu namorado até ofereceu-se para me acompanhar. Só que carnaval não é algo para brincar assim, de dois. Ao menos que a brincadeira seja outra…
Queria reunir os amigos, me perder na folia. Mesmo que não estando no espírito.
Fica apenas um desejo fraco de alguém que se sente gripada e doente, que vê suas férias mais uma vez chegando ao fim, e que vê a cada dia o mundo se tornando um lugar sem cor. Acho que começo a enxergar preto e branco, já que até o carnaval perdeu suas cores para mim.