09
dez
10

Hyper Love

Havia meia hora que Atsushi não fazia qualquer movimento. Apenas olhava fixamente para a TV, ali sentado no sofá da própria sala. E, mesmo que olhasse para o aparelho, sequer prestava atenção nele. Pois não notava que o vídeo que assistia há muito acabara, restando na tela da TV apenas o chiado e os chuviscos do fim da fita.

Era certo que estava perdido nos próprios pensamentos, no próprio tédio, na própria melancolia.

Sentia que devia estar grato por ter algum descanso, que devia estar feliz por poder ficar em sua própria casa sem ter qualquer compromisso ou obrigação. Sabia que em algum momento havia clamado por um pouco de paz, reclamado do cansaço.

Mas não era aquele tipo de descanso que queria. Não queria ficar trancado em sua casa sentindo-se inútil, ao passo que ele –Imai– parecia tão ocupado. Imai tinha seus próprios projetos, não dependia da vontade de Atsushi para fazer o que quisesse. Tantos contatos, tantos amigos. De que Atsushi era útil para ele? Era só alguém que estragava as melodias do guitarrista com suas letras melancólicas e pobres.

Odiava sentir-se um estorvo, um peso que os outros indulgentemente aceitavam carregar. Alguém que só causaria problemas, que só atrasava a vida de todos.

Abraçou uma almofada enfurnando seu rosto nela, apertando como se quisesse privar a si mesmo do ar. Sufocando-se de propósito, sem luta, contente em sentir a tontura e o torpor naturais de quem é impedido de respirar.

Desejava ser salvo. Ansiava por alguém puxasse que seus cabelos longos e o impedisse de partir. Queria que sua gata miasse tristemente pedindo que parasse com aquela loucura.

Nada. Apenas o chiado da televisão e a respiração pesada de Atsushi se faziam ouvir. Era tão fraco que não possuía sequer a capacidade acabar com a própria vida sem uma platéia.

***

Yutaka estava com os braços cruzados, batendo um dos pés nervosamente enquanto esperava por Imai.

Não imaginava que iria aparecer no estúdio durante aquelas férias, no entanto precisou fazê-lo. Necessitava falar com o guitarrista pessoalmente ou ele não o ouviria.

Um sorriso se fez em seu rosto, desfazendo por um momento a expressão preocupada que estava estampada nele, ao ver Imai vindo em sua direção.

“Yuuta, o que aconteceu? Até achei que fosse uma brincadeira quando disseram que estava aqui…” Murmurou ao se aproximar, enxugando o rosto com uma toalha que trazia nos ombros.

Imai não parecia abalado. Não parecia qualquer coisa que não fosse sonolento. Será que imaginava o assunto que levara Yutaka até ali?

“Eu sinto muito Imai kun… Mas precisava lhe falar pessoalmente. O Acchan, o Acchan ele…” Começou a dizer, sabendo que talvez não fosse correto ir direto ao ponto, quando Imai o interrompeu.

“O Sakurai, O Sakurai… É sempre ele, não é? O que foi dessa vez? Ele se casou? Engravidou alguma coitada? Ficou bêbado e foi parar no hospital? Por que eu sempre tenho que ser responsável pelas idiotices dele?” Falou rapidamente sem parar de enxugar o rosto, sem qualquer alteração em sua expressão, mesmo usando palavras que soavam duras aos ouvidos de Yuuta.

Os olhos do baixista se desviaram para o chão. Não desejava ouvir tais palavras, ainda que já estivesse preparado para aquele tipo de reação.

“Imai kun, não seja tão duro, por favor. Se eu vim lhe procurar, é por que você é o único que pode fazer algo. O único a quem o Acchan ouve.” Disse com sua voz baixa, sussurrada, levantando o olhar numa tentativa de parecer firme.

“Sei que não é sua responsabilidade. Sei que o Imai kun não tem nenhuma obrigação… mas…” Yutaka continuou, apertando o tecido das próprias mangas, numa atitude infantil que quebrou a aparente indiferença de Imai.

“Está bem Yuu, já entendi. Não estou brigando com você, está bem? Agora diga, o que aquele idiota fez dessa vez…” Suspirou, parando de enxugar o rosto e olhando para Yutaka.

Aquela era uma longa estória. Uma estória tão antiga e que a cada dia ficava maior, ganhando novos capítulos, parecendo cada vez mais longe de ter um final feliz.

Tinha ciência que de nada adiantaria fazer rodeios. Contudo, não queria que Imai achasse que era algo simples e sem importância. Que pensasse ser só mais uma das crises de Atsushi. Yutaka estava certo que daquela vez era sério, que o vocalista não estava nada bem.

“Faz semanas que venho tentando tirar o Acchan de casa. Não só eu, pelo que sei, e ele se recusa a sair. A voz dele… ela parece tão triste, Imai, tão distante.” Yuuta começou, tentando colocar emoção nas próprias palavras a fim de comover seu amigo.

“Sim e a novidade, qual é?” Imai perguntou, tentando não ser rude com Yutaka, por mais que fosse impossível suas palavras não soarem sarcásticas.

“Imai kun!” Exclamou. “É sério, é realmente sério. Não se lembra como ele ficou quando você anunciou que iria aproveitar nossa pausa para trabalhar no seu projeto? Estou certo que essa apatia do Acchan tem relação com isso…” Disse tentando acalmar-se, odiando pensar que suas palavras não estavam surtindo efeito em Imai.

O guitarrista já tinha na ponta da língua um bom par de respostas nem um pouco bonitas, porém preferiu calar-se. Yutaka não merecia suas respostas malcriadas, afinal não fizera nada de errado. Só estava preocupando-se, como sempre, com a felicidade de todos. Admirava a abnegação que U-ta apresentava ao tratar dos problemas dos seus amigos, embora isso quase sempre acabasse trazendo problemas a Imai.

“Vou procurar ele. Vou procurar o idiota do Atsushi e sacudi-lo até que se recomponha, está bem? Eu prometo… Agora venha, venha ver o que acha do som que estou fazendo.” Imai sorriu, um sorriso que infelizmente não era verdadeiro, tentando distrair U-ta.

De nada adiantaria dizer para seu amigo que não ligava mais para os showzinhos de Atsushi. Que estava cansado de ter que correr atrás do vocalista toda vez que ele tinha uma de suas crises.

U-ta, por sua vez, também sorriu. Um sorriso largo, verdadeiro. Balançando a cabeça para dizer que iria com Imai, ouvir o que ele estava ensaiando.

***

Imai praguejou um sem número de vezes, olhando para aquela porta. A porta do apartamento de Atsushi. Pensava em como fora parar ali, em que força era essa que fazia seus passos dirigirem-se até aquele lugar.

Por mais que não quisesse admitir, acabara se preocupando com o vocalista. Bastou chegar em casa e ficar um minuto sozinho para as palavras de U-ta martelarem em sua mente.

Por que Atsushi ficaria abalado daquele jeito? Não, não podia ser por conta do projeto que Imai estava fazendo. Que sentido havia nisso? Nenhum sentido.

E não ter sentido era o que dava a Imai a certeza de que aquela alternativa possuía muitas chances de ser a correta. Vindo de Atsushi, o motivo mais absurdo sempre era o mais certo para sua apatia.

Resolveu por fim apertar a campainha e encarar o vocalista. Não tinha motivos para sentir-se culpado. Não havia nada a temer.

Atsushi pareceu recobrar a consciência ao ouvir o som da campainha, saindo do sofá num salto, assustado. O barulho estridente fazia seu coração bater acelerado, como se aquele fosse um sinal de que algo horrível acontecera. De que alguém vinha lhe trazer alguma noticia ruim.

Correu pela sala até chegar ao corredor e finalmente abrir a porta de entrada, esbaforido.

Embora o guitarrista se julgasse preparado para qualquer cena assustadora e deprimente, era sempre um baque ficar cara a cara com Atsushi daquele jeito.

O rosto tão pálido contrastando com olheiras escuras, profundas. Os lábios secos, os cabelos desgrenhados. Umas roupas muito largas, amassadas, uns andrajos perto das vestes vistosas que costumavam adorná-lo. Pés descalços tocando o piso frio, sem sequer meias para protegê-los. Uma visão perturbadora, em todos os sentidos.

Os olhos negros de Atsushi arregalaram-se. Seus dedos compridos automaticamente dirigiram-se aos cabelos para tentar arrumá-los, logo após seguindo as mãos para suas roupas, batendo nelas rapidamente, como se apenas isso fosse capaz de desamassá-las. A tentativa inútil do vocalista para recompor-se só tornava aquele quadro mais degradante do que já estava.

Imai pensou em dar lhe um soco, ainda que fosse fraco demais para bater em Atsushi. Pensou em pegar o vocalista pelos ombros e sacudi-lo fortemente até que saísse daquele transe auto-imposto. Pensou em fazer qualquer coisa que fosse, quando seus pensamentos foram abruptamente interrompidos.

O vocalista o abraçou de súbito, agarrando-se nele. Apertando o tecido da regata que Imai vestia, sufocando-o com seu desespero.

Se havia pensamentos racionais em Imai, estes foram tirados à força de sua mente por Atsushi. Ele dominava os sentidos do guitarrista naquele abraço, fazendo com que sentisse uma forte e inexplicável sensação de nostalgia.

“Você veio… você voltou para mim… meu Imai” Foram as únicas palavras do vocalista, enquanto cessava o abraço colocando ambas as mãos no rosto de Imai.

Aquelas mãos grandes o apertavam, faziam Imai sentir-se pequeno envolto nelas. Calado diante dos olhos grandes de Atsushi que parecia poder devorá-lo a qualquer momento.

E foi isso que ele fez. Puxou o guitarrista para dentro do apartamento sem dar-se ao trabalho de fechar a porta, empurrando-o para uma parede do corredor.

Prensou seu corpo contra o de Imai, sentindo um estranho contentamento por ele parecer tão frágil, tão magro. Fazia Atsushi sentir-se forte, sentir que poderia fazer o que quisesse com ele, fosse à vontade do guitarrista ou não.

Pensou haver ouvido algum protesto de seu amigo. Mas não se deixou ter certeza de que havia reclamações. Preferiu calar aquela voz sibilante com seus lábios. Estava com sede, com sede dele.

Imai sentia-se tonto. Suas mãos dirigiram-se para as roupas de Atsushi. Queria afastá-lo. Queria fugir dele. E essa sua vontade sequer durou até que estivesse com as mãos segurando a camisa do vocalista.

Em vez de repeli-lo, o puxava, deixava suas coxas entreabertas para que Atsushi roçasse no meio delas. Matasse as saudades que sentia, fazendo Imai começar a pensar que também sentira falta dele.

Podia viver sem Atsushi, desde que seus olhares não se cruzassem. Que o cheiro dele não lhe invadisse as narinas, que o gosto não lhe dominasse o paladar.

Uma vez perto dele, uma vez sentindo os dedos compridos adentrarem suas roupas, nada poderia fazer para frear aquele desejo. Iria arrepender-se por alimentar a loucura de Atsushi, mas não naquele momento. Isso ficaria para o depois.

***

Abriu os olhos, encarando sonolento o teto, tentando lembrar em que momento o havia pintado daquela cor e de onde tirara a idéia de comprar um lustre tão brega. Era tão exagerado que parecia coisa do At… Atsushi. Estava no quarto de Atsushi!

Teve um sobressalto, se sentando na cama, olhando em volta assustado. Por um momento não se lembrava como fora parar ali e nem o porquê de estar sem roupas.

Bastou uns poucos segundos para avistar o vocalista deitado de bruços ao seu lado. Dormindo, com nada além dos cabelos pretos a lhe cobrir o corpo.

Suspirou audivelmente colocando uma das mãos no rosto. Por que precisou ser preso por porte de drogas, naquela curiosidade de como seria sentir-se dopado, se podia ter uma overdose completamente legalizada sempre que quisesse?

Perdia o controle, perdia o tino. Esquecia quem era, onde estava. E nem se lembrava desde quando o outro possuía tanto controle assim sobre o seu desejo. Como Imai iria imaginar que pagaria um preço tão alto por querer brincar com o garoto bonito com cara de gatinho assustado? Ninguém lhe avisou que sua alma ficaria para sempre presa a ele no dia que provasse o seu corpo.

“Imai…?” Ouviu a voz manhosa de Atsushi, que não demonstrava nada da tristeza que U-ta tanto falara. Fora enganado e sabia disso.

“O Imai voltou para mim?” O vocalista perguntou, aproximando-se de Imai, ficando por cima dele.

Perguntava-se onde estava sua dignidade. Para onde fora sua melancolia. Sentia-se tão bem, como se a presença de Imai houvesse dissipado toda a tristeza de seu coração.

“Não Atsushi, eu não voltei. Não voltei por que não fui a lugar algum!” Imai chispou, cruzando os braços, olhando firme para Atsushi. “Eu só deixei meus ensaios de lado porque Yutaka veio dizer que o senhor não queria sair de casa, que estava enfornado aqui. E obviamente a culpa era minha, já que sou sempre o responsável por todos os seus problemas” Disse no mesmo tom áspero de antes, esforçando-se para não se abalar diante do olhar triste que o vocalista começara a lhe lançar.

As palmas das mãos de Atsushi estavam uma de cada lado do corpo de Imai, apoiadas na cama. E ele continuava ali por cima do guitarrista, o olhando em silêncio.

Não soube se devia ficar triste pelas palavras duras que ouvia ou se devia ficar feliz pelo outro se preocupar. Talvez devesse calar a voz de Imai novamente, beijando-o e fazendo com que esquecesse a própria raiva.

“Sinto… muito” Murmurou saindo de cima do amigo, sentando ao seu lado na cama, apoiando as costas na cabeceira dela e puxando um travesseiro para seu colo. De repente sentia vergonha da própria nudez. “Não era minha intenção preocupar o Yuchan… nem desviar sua atenção dos ensaios…”

Olhou o vocalista com o canto dos olhos. Odiava-o quando agia daquele jeito. Era tão típico… tão típico daquele Atsushi.

Sentiu falta, por um momento, do Atsushi que não se deixava consolar. Do adolescente arredio que escondia seus problemas. Que fazia Imai ter de arrancá-los, um a um. Para que assim pudesse consolar seu amigo.

“É por causa… do meu projeto que você está assim?” Imai foi direto ao ponto, procurando com os olhos onde estariam suas roupas. Não conseguia sentir-se sério nu como estava.

Abaixou a cabeça, encolhendo-se, se sentindo frágil. Nem para si mesmo conseguia admitir que o projeto solo do amigo o abalara daquele jeito. Não queria que fosse tão obvio para ele que isso o estava afetando.

“Não é tão simples assim… eu só… queria que você precisasse de mim. Mas não precisa… você pode fazer o que quiser. Eu não, eu estou preso a você, Imai” Falou fechando os olhos, abaixando um pouco a cabeça, deixando que seus cabelos cobrissem lhe a face.

Estava de pé, com suas roupas nas mãos, olhando fixamente para Atsushi. Não esperava aquelas palavras. Não esperava que esse fosse o motivo de sua tristeza.

Um homem tão belo, um que qualquer pessoa desejaria. Que tem o mundo a seus pés. Por que estava se humilhando assim?

Teve vontade de abraçá-lo. Teve vontade de gritar com ele. Fazer amor com ele, machucar seu corpo. Ficar ao seu lado, deixá-lo de vez. Toda aquela loucura, aquela mistura de sensações dúbias que só Atsushi podia lhe causar.

Voltou a subir na cama, respirando profundamente, largando as roupas que estava segurando.

Uma de suas mãos tocou um ombro de Atsushi. Viu o corpo dele tremer com o toque, encolher-se com medo. Imai não queria ser o causador daquilo. Não se julgava merecedor da dor de Atsushi.

“Acchan, pare com isso. Eu só estou me divertindo com meus amigos enquanto a banda está de férias. Todos estavam precisando descansar e é isso que estou fazendo. Essa é minha forma de descansar. Você devia encontrar a sua também. Vá… saia com o Yutaka, saia com seus amigos… viaje! Só não fique aqui se enchendo de auto piedade…” Imai falou, mantendo a voz calma, afagando o ombro de Atsushi.

Não era bom com as palavras. Imaginava que Yuuta poderia estar consolando Atsushi de maneira mais eficiente, mas era como o baixista dizia, Atsushi não ouvia a mais ninguém.

***

“Imai kun, por favor, mais ninguém tem coragem de falar com ele…” Yutaka pediu, unindo as palmas das mãos e curvando-se levemente diante de Imai.

Imai suspirou passando a mão pelos cabelos, sentindo-se derrotado pelo garoto mais novo. Que diabos… não conseguia resistir aos pedidos de Yutaka quando ele os fazia tão veemente.

O garoto não tinha culpa de precisar pedir aquilo. Era o vice representante da própria classe, no segundo ano, e fora coagido pelo representante da sala de Imai a falar com Sakurai, já que eram da mesma banda. Contudo, nem mesmo Yutaka tinha coragem para tanto.

O jovem guitarrista pensou que seria melhor o representante da classe ter deixado Yutaka em paz e pedido o favor diretamente. Embora, provavelmente Atsushi não fosse atender a um pedido do representante da classe. Aquele cara devia ser bem esperto em usar Yuuta para seus planos.

“Está bem Higuchi. Vou falar com o Sakurai, porém, isso não quer dizer muita coisa. Ele não vai ajudar na feira cultural de qualquer maneira. Mas você… você, o representante do terceiro ano, deviam parar de ter medo dele. O Hoshino parece bem mais assustador e ninguém o teme.” Imai disse, cruzando os braços, olhando intrigado para o sorriso de Yutaka.

“O Hoshino kun é como um grande urso, ainda que pareça assustador, temos vontade de abraçá-lo. Já o Sakurai kun têm algo nos olhos que faz todos terem medo de se aproximar.”

Não pôde não rir, passando uma das mãos no cabelo do garoto menor, achando graça daquela comparação tão boba. Hoshino, um urso, só mesmo na cabeça de Yutaka. Para Imai, ele mais parecia um gorila.

“O Sakurai está mais para um gatinho assustado do que para uma fera. Você perceberia isso se começasse a falar com ele. Ou falar para ele, já que ele não fala mesmo. Mas para quem consegue aturar o Hoshino, não me parece uma tarefa muito difícil…”

Riram, se despediram, e Imai ficou se perguntando por que aceitara tão prontamente o dever de tentar convencer Sakurai a participar da feira cultural. Afinal, nem o próprio Imai queria participar de algo tão idiota. Pelo menos era melhor do que ter aula, o que não queria dizer que era algo bom de qualquer jeito.

O horário de almoço logo iria acabar, precisava resolver aquilo depressa, para inventar uma desculpa na enfermaria e conseguir ser dispensado das atividades físicas da tarde.

Decidiu procurar Atsushi no terraço, o lugar mais provável e óbvio para encontrar um delinqüente juvenil. Aquele garoto se esforçava tanto para ser malvado que mais parecia uma caricatura de algum mangá para adolescentes.

Riu consigo mesmo ao chegar ao terraço e se deparar com Atsushi encostado à parede, com aquele olhar cansado que lhe era habitual. Imaginava o que o outro tanto fazia à noite para estar sempre daquele jeito. Isso é, se não ficava apenas vendo TV até tarde, só para acordar com aquela expressão de noite mal dormida.

“Oe, Sakurai!” Imai chamou, falando propositalmente com um toque do sotaque típico dos filmes de Yakuza. Será que Atsushi já havia percebido que falava com ele daquele jeito para tirar com sua pinta de Yankee?

“Você podia se esconder num lugar mais difícil, sabia? Se o coordenador das turmas passasse menos tempo espiando as garotas no banheiro, você já teria sido suspenso!” Falou no mesmo tom, sentando-se ao lado do baterista, estranhando aquele cheiro que vinha dele. Atsushi cheirava como um homem adulto.

Viu o outro garoto encolher-se, abraçando os joelhos, escondendo o rosto neles. Estaria envergonhado? Não parecia algo do feitio dele.

“Me deixa em paz” Foi o que Atsushi disse, com a voz abafada por conta de estar com o rosto pressionado contra os joelhos.

Imai balançou a cabeça, perguntando como alguém podia ter medo daquele garoto. Ele pedindo para que o deixasse em paz, mais parecia implorar para que não o deixasse ali sozinho.

Será que mais ninguém, além de Imai, notava que Sakurai só queria chamar a atenção? Que aqueles olhos grandes mais pareciam os de um filhote perdido do que os de alguém assustador?

“O festival. Você vai ter que fazer alguma coisa. E não adianta dizer ‘não’. Se você se recusar o Yuuta vai ouvir por você. Nosso representante está coagindo ele, provavelmente fez algum tipo de ameaça caso você não participe.” Imai mentiu, só um pouco, para aumentar a gravidade dos fatos. “Obviamente Yutaka é um bom garoto, não teria coragem de persuadir você a fazer algo que não quer. Por isso eu estou aqui. Se acontecer algo com nosso baixista, a banda vai ter problemas. Está entendendo?” Imai continuou, esforçando-se para não rir do próprio sotaque que estava tentando dissimular.

Atsushi levantou a cabeça, olhando para Imai. Não entendia por que ele falava daquela maneira estranha quando estavam só os dois juntos. Entretanto, sentia um tipo de contentamento por o guitarrista falar com ele de maneira diferenciada.

Não queria participar do tal festival. Não se sentia bem perto de todas aquelas pessoas, não queria ter que interagir com ninguém. Entretanto, não pensou que isso pudesse trazer problemas para Higuchi.

“O… que eu preciso fazer?” Perguntou desviando os olhos para o chão, apertando o tecido da própria calça.

Imai sorriu levantando a cabeça, olhando para o céu. Até que gostava, daquele tal Sakurai.

***

Mesmo que não agisse imediatamente, Atsushi sempre acabava ouvindo Imai. Fazendo as coisas que ele pedia ou simplesmente dizia que tinha que fazer.

Quase sempre se tratavam fatos que outras pessoas já haviam se cansado de falar. Coisas que o próprio vocalista possuía consciência que eram corretas ou necessárias. Entretanto, parecia precisar de uma ordem expressa de Imai, como se vindo dele qualquer coisa fizesse mais sentido.

Isso era esquisito, especialmente se levasse em conta o quanto costumava discordar de Imai. Perdera a conta de quantas vezes os dois acabaram brigando e atrasando as decisões da banda por isso. E ainda assim, sentia-se totalmente dependente da opinião dele. Como se só fizesse coisas estúpidas quando agisse por conta própria.

Resolveu achar sua maneira de descansar naquela pausa. Encontrou conhecidos, bebeu, saiu com algumas garotas vistosas. Até mesmo se envolveu com uma delas naquele meio tempo, além de ajudar no álbum de um amigo junto a Hide.

Nem era do seu feitio fazer tanta coisa em tão pouco tempo. Mas se via obrigado a ocupar seus dias, já que não queria dar mais motivos para preocupar seus amigos.

Sabia que novas músicas estavam sendo preparadas. Não tinham nada pronto para o álbum novo, contudo, o esboço dele já estava sendo feito, ainda que Imai continuasse envolvido com o próprio projeto.

Naquele dia Atsushi inventou uma desculpa mental qualquer para precisar ir ao estúdio. Algo sobre precisar de alguns documentos, não sabia ao certo, uma vez que se esquecera daquela desculpa antes mesmo de entrar no prédio da gravadora.

O que queria de verdade era ver Imai, embora não fosse admitir isso. Queria falar com ele, mostrar que estava bem. Pois, apesar de já terem se reencontrado algumas vezes, não se falaram diretamente. Só estavam bebendo junto dos mesmos amigos. Além de que, o fato de Atsushi estar acompanhado nessas ocasiões provavelmente houvesse atrapalhado uma aproximação.

Aquilo nem mesmo era uma situação incomum entre eles. Num momento ele e Imai pareciam dividir a mesma alma. No entanto, no momento seguinte, a distância entre eles parecia tão grande que sequer conseguiam se falar.

Suspirou frente à porta da sala de ensaios, decidindo entrar logo, já que fora até ali. Não devia ter nada de estranho em querer assistir o ensaio do seu companheiro de banda.

“Maki!” Atsushi exclamou ao entrar na sala, talvez como uma forma de cumprimento ou quem sabe surpreso por vê-lo sozinho ali. Afinal fora informado que todos estariam fazendo o ensaio final para um show do projeto.

Admirou-se da própria conversação com aquele homem. Eram todos amigos no fim das contas, não devia ficar enciumado só por que Imai queria fazer música com ele.

“Mas… onde está Imai?” Resolveu perguntar depois de um tempo, tentando não mostrar-se tão interessado assim em saber o paradeiro do guitarrista.

Intrigou-se com a expressão do outro. Ele parecia fazer rodeios, o que deixou Atsushi desconfiado de que Maki estava tentando esconder algo.

“O Imai… ele foi ao banheiro” Disse sem graça, um pouco amedrontado com o olhar de Atsushi.

O vocalista quis disfarçar a própria desconfiança, mudar de assunto. No entanto, quando deu por si, estava saindo da sala usando um pretexto qualquer.

Banheiro… Até parecia uma mentira de alguém do primário. Se Maki não queria dizer onde Imai estava, pelo menos podia ter sido um pouco mais criativo.

Percebeu-se irritado, andando em passos largos, querendo sair logo dali. Apesar disso, resolveu passar no banheiro daquele andar. Quem sabe Imai não estivesse mesmo lá?

Entrou no lugar. Um banheiro masculino comum, que não costumava usar. Afinal a banda tinha um banheiro privado.

Apoiou as duas mãos na cuba da pia, abrindo a torneira, usando a água para molhar o próprio rosto. Sua aparência no espelho, de repente, lhe pareceu tão cansada como quando estava se lamentando em casa.

Preparava-se para ir embora, quando um barulho chamou sua atenção. Um barulho de algo batendo contra alguma das portas dos reservados. Sequer se dera conta de que havia mais alguém no banheiro.

Outra vez e outra em seguida, agora acompanhada de um murmúrio muito baixo. Um murmúrio sibilante… conhecia aquilo!

Um arrepio percorreu seu corpo. Sentiu medo diante da imagem que se formou em sua mente. Era Imai, Imai quem estava naquele reservado.

Andou em passos lentos até a porta de onde o ruído parecia vir, tentando abafar o barulho dos próprios passos, colando o ouvido na porta.

Ali pode ouvir sussurros. Gemidos que se confundiam com os que julgava ser de Imai. Roucos, masculinos, gemendo palavras… em inglês.

A mão de Atsushi fechou-se em punho. Sentiu vontade de socar aquela porta. De socar Imai, de arrancá-lo dali e bater nele.

Então era isso que Maki estava escondendo. Devia ter desconfiado, Imai não resistiria, não é? Não resistiria àquele inglês.

Não se preocupou mais em fazer barulho ou não, saindo apressado do banheiro, batendo a porta de saída.

Odiava Imai. Odiava Imai mais do que qualquer coisa.

***

A mãe de Imai recebeu Atsushi com sua costumeira simpatia lhe dizendo para subir, que seu filho estava em casa, estudando com um amigo.

Na realidade, qualquer um poderia ir ao quarto de Imai sem passar pelo ritual de pedir licença para a mãe dele ou mesmo bater à porta.

Pelo jeito, os familiares dele estavam acostumados a grande quantidade de jovens que iam ao quarto de Imai para ouvir seus discos e seus comentários sobre bandas, filmes ou qualquer coisa que fosse.

Naquela cidade pequena, com tantas pessoas iguais, que se contentavam com suas vidas medíocres, alguém como Imai se destacava. Tornava-se alguma espécie de ídolo ou de messias a quem todos queriam ouvir.

Atsushi não era diferente daquelas pessoas. Julgava-se até pior que elas, já que a aparente normalidade de suas vidas o invejava. Por muito tempo, se formar e ser um assalariado parecia o único sonho que podia ter. E, ainda assim, não lhe parecia um sonho tangível.

Porém, as coisas mudaram quando conheceu Imai e se deixou atrair pelo brilho dele, pela grandiosidade de suas palavras. Naquele momento, uma vida simples lhe pareceu a pior coisa que poderia querer.

Lembrava que das primeiras vezes que estivera no quarto dele, o guitarrista sequer sabia seu nome. Pensava que, mesmo depois, ele ainda o devia confundir com outro colega qualquer, embora estudassem juntos desde o segundo ano.

Apesar de não gostar de aglomerações, Atsushi não conseguia evitar o desejo de estar perto de Imai. Querer ouvi-lo, ainda que nem sempre entendesse das coisas que ele falava, como se simplesmente estar perto dele o fizesse uma pessoa melhor.

Esse fora o motivo que levara Atsushi a se candidatar à banda que Imai estava formando. Escolhendo um instrumento com o qual não tinha afinidade, apenas por ser o único que faltava para completar a banda.

Sabia que um baterista não era algo simples de se arranjar, assim, se aproveitou desse fato para ficar mais próximo daquele garoto que admirava. Para que pudesse falar com ele e, principalmente, para que o outro lhe falasse.

Chegou à porta do quarto de Imai, pensando se devia bater. Ele estaria mesmo estudando? Atsushi não se lembrava de haver alguma prova marcada, apesar de não ser um bom aluno, ainda assim costumava ao menos saber as datas dos testes.

Resolveu colar o ouvido na porta, a fim de verificar se Imai e o outro garoto tratavam realmente de assuntos escolares. Não iria atrapalhar se esse fosse o caso.

Nada. Chegou a pensar, num primeiro momento, que não havia ninguém ali. Que os dois deviam ter saído de casa sem informar a mãe do guitarrista, tamanho o silêncio do outro lado da porta.

Talvez devesse bater. Apesar de que ninguém batesse à porta de Imai. Quem sabe fosse melhor ir embora já que não tinha nenhuma desculpa concreta para estar ali.

E, ao contrario das hipóteses que se formaram em sua mente, Atsushi resolveu abrir a porta do quarto de Imai. Muito lentamente, espiando pela fresta que se formava, a fim de verificar se havia alguém no local.

Havia.

Um desconhecido sentado na beirada da cama, alguém que certamente não estudava na escola deles, até por que não tinha aparência de ainda estar no colégio. Não era um garoto como os dois, e sim um homem feito. Devia ter, no mínimo, uns vinte anos.

Era certo ele e Imai não estavam estudando. Entretanto, Atsushi não teve tempo para se perguntar o que aquele homem fazia ali, já que o guitarrista apareceu no seu campo de visão respondendo a qualquer dúvida que pudesse ter.

O rapaz mais jovem ajoelhou-se entre as pernas daquele homem que Atsushi desconhecia, puxando suas calças desajeitadamente. Com pressa, como se desejasse muito livrar-se das roupas dele.

Sabia que podia ser visto caso um dos dois olhasse para o lado, porém o risco não era grande o bastante para fazer o baterista sair do estado de letargia em que se encontrava.

Via-se assustado com aquela cena, enojado com ela. Não podia acreditar em seus olhos, não podia acreditar nos lábios de Imai a acariciar aquele homem. Tão íntima e profundamente que, por um momento, Atsushi teve inveja dele.

Fechou a porta sem se importar de fazê-lo lentamente, saindo dali o mais depressa que pôde.

Não queria que ninguém o visse naquele momento. Que visse sua face transtornada ou o volume que certamente se formara entre suas pernas.

Sentia-se traído. Traído como nunca se sentira antes.

Odiava Imai, odiava-o por conseguir destruir o primeiro sonho feliz que conseguira sonhar.

***

Imai amaldiçoou a si mesmo um sem número de vezes, imaginando todas as possíveis broncas e sermões que receberia de U-ta.

Conseguia ver, se fechasse os olhos, a expressão decepcionada no rosto do baixista. Podia até mesmo ouvir o tom de desaprovação que sairia de seus lábios finos.

Odiava isso. Odiava sentir-se culpado sem ter feito nada de errado. Odiava ser acusado e julgado pela própria consciência sem ao menos ter uma chance para se defender.

E ela falava com a voz baixa de Yutaka, dizendo que precisava procurar Atsushi, desculpar-se com ele. Inventar alguma explicação, afirmar que era um mal entendido. Qualquer coisa.

Ao mesmo tempo, outra parte de si dizia que não devia explicação alguma. Diabos! Não era nada de Atsushi, nada além de amigo e companheiro de banda. Não era um marido que devia pedir perdão à esposa traída.

Sequer traíra Atsushi! Como podia traí-lo se não tinha, nem nunca tivera, compromisso algum com ele?

Tentou acalmar-se, sentando-se no sofá da própria sala, ascendendo um cigarro. Não podia passar a vida correndo atrás de Atsushi. Se ele era mimado daquele jeito, a culpa era sua por sempre fazer as vontades dele.

Sim, pensou passando uma das mãos pelo cabelo, tragando seu cigarro. Não iria atrás do vocalista. Agiria como se não soubesse que ele estivera naquele banheiro. Ou até, como se soubesse, mas deixando claro que não se importava que ele tivesse ciência de que estava transando com Raymond ou com quem quer que fosse.

O próprio Atsushi estava com uma garota agora, não estava? Pois que ficasse com ela!

Parou por um momento, deixando seu corpo escorregar pelo sofá. Não, talvez não fosse bom que Atsushi ficasse com ela. Ou iria acabar casado como da última vez.

“Mas que merda!” Exclamou com o cigarro entre os lábios. Por que tinha que ser sempre o responsável por todos os problemas do idiota do Atsushi?

***

Não conseguia parar de rir, rir da própria face refletida no espelho que havia em uma das paredes de seu quarto. Era tão engraçado, tão patético! Parecia uma mulher com aquele cabelo, como não se dera conta disso antes?

Trouxe mais uma vez a garrafa de vodka aos lábios, entornando-a, bebendo dela um grande gole. Já era a segunda daquela noite.

Voltou a fitar-se. Odiava o reflexo que estava vendo. Vociferou contra ele, contra ela. Contra a maldita vagabunda que o olhava no espelho.

“A culpa é sua! A culpa é sua do Imai estar me traindo!” Gritou, ameaçando o reflexo com a garrafa. “O Imai nunca gostou de mulheres, ele gosta de homens! Por isso ele está fodendo com aquele inglês. Ele sabe como tratar o Imai, diferente de você, vadia, vadia!” Repetia, sentindo lágrimas molharem sua face, bebendo um último gole da vodka, jogando a garrafa vazia com toda a força contra o espelho.

Queria que aquela mulher fosse embora. Queria que ela sumisse para que Imai novamente o quisesse. Queria ser novamente um homem para ele.

O espelho despedaçado, assim como a garrafa, cobria o chão com vários estilhaços. Alguns deles grandes o suficiente para Atsushi conseguir ver o próprio rosto. O rosto da mulher que o assombrava.

Tentou chutar aqueles cacos, mas seus pés descalços se feriram, raspando nos fragmentos.

Caiu de joelhos no chão, sem importar-se com a dor em seus pés, ou agora em seus joelhos, apoiados naqueles cacos.

As lágrimas que tinha nos olhos não vinham da dor em seu corpo. Ela era pequena, mesmo que o fizesse sangrar, diante da dor que sentia dentro de si. Seu coração, este sim, estava ferido, ferido mortalmente. Agonizante por conta da traição de Imai.

“Por que não vai embora? Por que não me deixa ser feliz? Isso é uma vingança?” Perguntava com a voz bêbada, chorosa, agarrando um estilhaço do espelho em uma das mãos.

Sua força ao segurar aquele pedaço de vidro fazia com que cortasse a própria mão. No entanto, isso parecia não lhe importar.

Voltou a rir, rindo como se zombasse daquela mulher, satisfeito por encontrar uma forma de acabar com ela.

Com a mão livre puxou uma mecha do próprio cabelo, com tanta força que o fez gemer involuntariamente, trazendo-a para perto do estilhaço de espelho que segurava.

Começou a forçar o caco contra o cabelo, cortando aquela mecha com alguma dificuldade, mais se machucando do que se livrando dela.

Ainda que doesse, estava satisfeito, e repetiu a tarefa até não ter mais força em sua mão ensangüentada.

Não desistiu. Não desistiria agora que via a mulher desfigurada, sem os cabelos longos que tanto a orgulhavam.

Tomou o caco na outra mão e voltou a cortar, rindo, chorando. Tosando o cabelo até que nenhuma mecha ultrapassasse seus ombros, até que não tivesse força em nenhuma das mãos cortadas.

“Você perdeu.” Disse com uma risada, deixando seu corpo cair ao chão, sentindo alguns cacos menores perfurando seu rosto. “O Imai vai ser meu agora, só meu!” Foram suas ultimas palavras antes que fechasse os olhos, crente de haver exorcizado aquele fantasma.

***

Yutaka estava sentado no corredor do hospital, num banco desconfortável, próximo ao quarto onde agora Atsushi descansava.

Queria fumar, mas não se permitia sair dali. Não até que Imai aparecesse.

Tamborilava os dedos em seus joelhos, nervoso, cansado por esperar. Prometendo a si mesmo que faria Imai tirar a carta de motorista de uma vez por todas. Se ele dirigisse, não demoraria tanto para chegar naquele hospital!

Por um lado, era sua culpa não ter chamado mais ninguém, mas Imai precisava saber antes dos outros. Pelo menos isso era o que a consciência de U-ta dizia.

Imaginava que o fato de haver encontrado Atsushi desacordado e sangrando tinha alguma ligação com o guitarrista. E enquanto Atsushi continuasse inconsciente, Imai era a única pessoa que podia ajudar Yutaka a desvendar aquele mistério.

Não fazia sentido aquela recaída de Atsushi. Parecia tudo tão bem desde que ele e Imai fizeram as pazes. O que era isso agora?

Por mais que Acchan bebesse e tivesse alguns instintos suicidas, Yuuta nunca julgou que ele fosse levar a cabo uma daquelas tentativas. Embora as pessoas cortassem os pulsos, e não os cabelos, quando queriam se matar.

“Onde está aquele idiota?” U-ta ouviu uma voz branda perto de si e levantou a cabeça apenas para certificar-se do óbvio, era Imai.

“Me diga onde ele está, eu quero matá-lo com minhas próprias mãos.” Continuou no mesmo tom, sem qualquer emoção na própria voz, ainda que dissesse aquelas coisas que soavam horríveis a Yutaka.

“Imai kun, não diga uma coisa dessas!” Yuuta exclamou, olhando Imai sentar-se ao seu lado e tirar um maço de cigarros do bolso da calça.

“Você está ficando repetitivo Yuu… está até parecendo nosso amigo suicida.” Disse com falso desdém, tirando um cigarro do maço e o colocando entre os lábios.

Os olhos de U-ta estreitaram-se. Sua mão pequena tirou o cigarro da boca de Imai, amassando-o, mostrando o quanto o guitarrista conseguira irritá-lo.

Imai suspirou, fechando os olhos, deixando suas costas escorregarem um pouco pela parede, se preparando para ouvir os sermões de Yutaka.

“Eu estava indo à casa dele, nós tínhamos combinado de ver alguns filmes juntos. Estranhei o Atsushi não atender a campainha e resolvi forçar a porta. Para minha surpresa ela estava aberta, assim eu entrei, chamando pelo Acchan.” O baixista começou a falar, sem que Imai pedisse qualquer explicação. “Nada, apenas a gata dele veio ao meu encontro. Então resolvi olhar no quarto dele… e ele estava no chão, com os cabelos cortados, no meio de um monte cacos daquele espelho que ele tem na parede. As mãos dele estavam cheias de sangue, Imai! Mesmo para o Acchan, isso não é algo comum. Ele nunca fez nada assim, não algo grave desse jeito!” U-ta falava sem parar, gesticulando, tentando convencer Imai da gravidade daquela situação.

Era o culpado, mais uma vez era o culpado da desgraça de Atsushi. E dessa vez ele fora longe demais.

“O Atsushi me flagrou fazendo sexo num banheiro do estúdio. Quer dizer, ele não viu nada, nem eu o vi. Mas eu sei que era ele e ele sabe que era eu. Só pode ter sido… isso.” Suspirou colocando as duas mãos no rosto, esfregando-o, como que tentando acordar.

U-ta ficou calado. Aquele parecia um bom motivo para o que Atsushi fizera, embora não fosse uma boa razão. Imai já tivera tantos casos, tantos namorados e Acchan nunca agira daquela forma…

“Não vai me dizer que, por um acaso, essa pessoa do banheiro é um dos membros do seu projeto!” Yutaka exclamou, jogando o cigarro despedaçado que tinha em uma das mãos no lixeiro ao seu lado, sem parar de olhar para Imai.

O guitarrista arqueou uma das sobrancelhas, confuso. Onde diabos Yuu queria chegar com aquilo?

“Qual… a relação?” Perguntou não compreendendo a expressão de Yuuta, parecia até que estava fazendo uma pergunta idiota.

“Se ele achava que você não precisava mais dele, já que você pode ter um projeto sozinho, o que me diz de você indo para cama com uma dessas pessoas? Está simplesmente dizendo que os membros do seu projeto podem substituir ele em todos os âmbitos!” Acusou, apontando o dedo para Imai.

E essa agora. Será que sequer podia viver sua vida sem precisar decifrar os enigmas da cabeça de Atsushi? Por que aquilo parecia tão fácil e lógico para Yutaka e não fazia sentido algum para Imai?

Yuu tinha jeito para babá. Daria um bom par para Atsushi, já que ele sempre parecia precisar de uma.

“Então a culpa novamente é de Hisashi Imai.” Cruzou os braços, olhando derrotado para o chão, quando sentiu a pequena mão de U-ta afagar-lhe um dos ombros.

“Não, Imai kun, dessa vez a culpa é só do Acchan.” Disse suavemente, tão suavemente que por um momento Imai estava certo de que aquilo era um sonho.

“Mas mesmo sendo culpa dele, alguém precisa curar as feridas que ele fez. Se eu pedir isso, você faz? Por mim?” Perguntou sem nenhum resquício do ódio de antes em seu olhar. Fazendo Imai sentir-se estúpido por antecedência, sabendo que não iria conseguir lhe negar aquele pedido.

***

Imai conseguia ver seu pai lhe virando as costas, sua mãe aos prantos sentindo-se culpada, culpada pelo guitarrista ser o que era.

Tivera sorte de não ter sido ela quem o flagrara com aquele homem em seu quarto. Contudo, seu descuido permitiu que Sakurai o visse. Estava nas mãos dele agora.

Não conseguiu dormir naquela noite, pensando que palavras usaria para convencer o outro a guardar seu segredo. Se é que ele já não espalhara para todos a notícia.

Chegando à escola, Imai olhava desconfiado para seus colegas, temendo todos os sorrisos e risadinhas. Parecia que eles sabiam, que todos cochichavam, mudavam de assunto quando chegava perto.

Entretanto, Sakurai não estava ali. Aquilo nem mesmo era anormal, mas naquele dia parecia que o baterista fizera de propósito para deixar Imai ainda mais desesperado.

Não agüentou esperar que a aula começasse. Saiu correndo da sala, indo para o terraço, o lugar óbvio onde Sakurai sempre se escondia.

Chegou ao lugar arfando, nervoso, passando a mão pelos cabelos. Onde estava Atsushi?

O procurou com o olhar, andou pelo terraço, e nada dele. Aquele moleque inútil não podia fazer isso. Não o podia torturar daquele jeito.

Sentou-se no chão escorando suas costas na parede, abraçando os joelhos. Aquela atitude e o rosto cansado pela noite sem dormir, faziam-no parecer tão patético quanto o Sakurai…

“Imai…?” Ouviu a voz grave, sentiu aquele cheiro que tanto o intrigava, nem precisaria abrir os olhos para saber que era ele. Sakurai Atsushi.

Isso. Estava de olhos fechados. Sequer havia percebido que estivera dormindo. Dormindo no terraço do colégio como um delinqüente juvenil.

Sakurai o olhava, de pé, na frente de Imai. Seu torso um pouco inclinado, como se tivesse feito isso para que o guitarrista ouvisse melhor o seu chamado.

“Sakurai…” Imai disse, tentando buscar em sua mente as palavras que havia ensaiado, as coisas que poderia oferecer em troca do silêncio de Atsushi, enquanto o via sentar-se ao seu lado no chão.

Gaguejou olhando o rosto dele, notando que sua expressão parecia mais cansada que o habitual e que havia alguns arranhões em sua face. Arranhões que desciam por seu pescoço até serem ocultados pela gola da camisa que Sakurai vestia.

“Eu sei… que era você ontem.” Falou finalmente, desviando o olhar de Atsushi, olhando para o chão. “Ouvi quando alguém bateu a porta e levantei correndo pensando que era minha mãe. Por sorte, não era ela. Mas ela me disse que você esteve lá.” Estava nervoso, contudo tentava manter a voz firme. Não queria que Sakurai percebesse o quanto aquilo o abalara.

“Você devia trancar a porta do quarto.” Atsushi começou, levantando um pouco uma das barras de sua calça, procurando os cigarros e o isqueiro que tinha escondidos na meia. “E eu devia bater antes de entrar.” Falou por fim, acendendo o cigarro e tragando-o em seguida.

Imai ficou atônito. Não pelo cigarro, embora nunca tivesse visto Atsushi fumar, aquilo não o surpreendia. Era sua reação, suas palavras, o que impressionaram o guitarrista. Não esperava aquilo. Esperava que Sakurai o ignorasse, que o chantageasse, que lhe desse uma surra.

“O que foi? O cigarro incomoda?” Atsushi perguntou, sem entender a expressão de Imai. Ele não parecia o mesmo de sempre, até sua maneira de falar não era a habitual de quando estavam juntos.

“Não, não me incomoda.” Murmurou incrédulo. “Não vai fazer… nenhuma pergunta sobre o que viu ontem?”

Atsushi expeliu a fumaça lentamente, olhando atento para ela, observando-a dissipar-se no ar.

Queria esquecer do que vira no dia anterior. Aquela simples memória trazia efeitos indesejados ao seu corpo. Efeitos que nem a mulher com quem se encontrou naquela noite fora capaz de remediar.

O que diria a ele? Que queria que ele tivesse contado que fazia aquelas coisas? Que se sentia traído de uma forma estranha por não saber daquele fato? Não tinha intimidade alguma com Imai para exigir aquele tipo de confidência. Não tinha o direito de se sentir traído.

Aquele silêncio de Sakurai o agoniava. Era a primeira pessoa próxima que sabia o seu segredo, a primeira que o flagrara. Precisava saber o que ele pensava.

Ele não o parecia repudiar por aquilo. Isso era algo bom, não era? Levando em conta que Imai tentava esconder o fato de gostar de homens até dos amigos íntimos, com medo de perder a amizade deles.

“Você só faz isso com caras mais velhos?” Quebrou o silêncio, segurando o cigarro entre os dedos de uma das mãos, tocando o próprio rosto com a outra. Descendo-a por seu pescoço até parar na gola da camisa que vestia.

Imai pôde jurar, por um momento, que Atsushi estava se insinuando. Que a maneira elegante de segurar o cigarro entre seus longos dedos, seu olhar cansado e profundo, seus lábios úmidos, tudo isso era apenas para seduzi-lo.

É. Só fazia isso com caras mais velhos… Mas talvez pudesse abrir uma exceção.

***

Imai passou algum tempo arquitetando seu plano. Tentando convencer seus pais que seria uma ótima idéia visitar alguns familiares em Tóquio, passar o fim de semana fora e deixá-lo tomando conta de tudo. Afinal era um garoto crescido e responsável, um que precisava estudar para muitas provas.

Essa parte do plano fora fácil. Nunca tivera problemas em convencer seus pais a fazerem suas vontades. Especialmente quando fazia parecer que só estava pensando neles.

Além de conseguir a casa deserta, precisava preparar o terreno. Não podia agir rápido demais, afinal Sakurai era arredio. Um passo em falso e ele escaparia entre seus dedos, era o que Imai pensava.

Começou a falar mais com ele, em vez de só procura-lo quando precisava passar algum recado. A convidá-lo para aparecer em sua casa após as aulas, a dar atenção para ele.

Queria saber coisas sobre a vida do baterista. Desejava saber quanta experiência ele tinha, que tipo de garota o atraía. Entretanto, não era fácil arrancar dele aquelas informações. Não era fácil ganhar sua confiança.

Soube que Atsushi era popular entre as garotas da escola, embora nunca tivesse saído com nenhuma delas. Estranhou isso. Ele parecia implorar tanto por atenção, por que dispensar aquelas garotas?

Havia um grande mistério. Gostava disso.

Aquele seria o grande dia. Após o ensaio, cansados, convidou Sakurai para ir a sua casa. Iria lhe emprestar alguns discos, essa era sua desculpa.

“Pode se sentar.” Disse com certa educação, apontado para sua cama, aproximando-se do armário onde guardava seus discos.

Atsushi olhava em volta, sentando-se, sentindo um arrepio estranho. Havia algo de diferente naquele dia. Um silêncio, uma tensão. Algo que não conseguia d escrever.

“Onde estão seus pais?” Perguntou olhando Imai tirar uma garrafa de trás de seus discos.

“Ah, eles foram passar o fim de semana em Tóquio, ou algo assim.” Falou, aproximando-se de Atsushi com a garrafa de sake em mãos. Dera trabalho roubar aquilo da coleção de seu pai. “Espero não ser sake de cozinha!” Riu olhando o rótulo, como que se certificando de haver roubado a garrafa certa.

Os pais de Imai não estavam em casa. Havia sake. Os discos eram apenas uma desculpa? Por que ele precisaria de uma desculpa?

Sem perceber, estava apertando o tecido dos lençóis da cama do guitarrista, encolhendo-se, olhando para o chão. Estava com medo?

“Pode fumar se quiser.” Imai disse, sorrindo enquanto abria a garrafa, sentando-se ao lado de Atsushi na cama, mantendo certa distancia entre eles.

Desde aquele dia no terraço que não o via fumar. Achara aquilo tão atraente, gostaria de ver Sakurai fumando outra vez.

Bebeu um gole daquele sake, do gargalo mesmo, achando-o forte demais. Não estava acostumado a beber, talvez tivesse sido melhor roubar cerveja.

Atsushi tirou uma das meias e depois a outra, ficando completamente descalço. Pegou dois cigarros amassados e o isqueiro que havia nelas, deixando-as no chão.

Colocou um cigarro sobre a cama, entre ele e Imai, e o outro em seus lábios. Não costumava fumar na frente dos outros. Acendeu e deixou o isqueiro também sobre a cama, tragando sem olhar para o guitarrista.

Outro gole. Olhou para o rosto de Sakurai, para seus lábios, suas mãos bonitas, seus pés nus. Nunca o tinha visto descalço. Não soube o motivo, mas sentiu-se hipnotizado ao olhar seus pés.

“Eu escolhi mal, Sakurai? Não gosta de sake?” Perguntou sacudindo a cabeça, tentando sair do transe em que se encontrava.

Atsushi finalmente olhou em sua direção. Não esperou uma resposta dele, apenas ofereceu a garrafa para que ele a pegasse, levantando da cama em seguida.

Foi até o aparelho de som, colocando um disco para tocar, sentindo-se levemente tonto com o pouco de sake que já havia bebido. Esperava que a bebida fizesse efeito rápido em Atsushi também.

“Esse sake é bom.” Ouviu Sakurai dizer. “Espero que seu pai não dê falta dele, é uma marca bem cara.”

Imai não sabia que era uma marca cara. E pensar que Atsushi sabia disso lhe deu medo de que aquela garrafa não fosse suficiente para deixar o baterista bêbado.

“Você entende de bebidas, Sakurai? Cigarros, bebidas… mulheres? Você tem mesmo 17 anos?” Riu deixando a música tocar, voltando para sentar-se na cama, dessa vez mais perto de Atsushi.

Ele virava a garrafa, bebendo com menos receio do que Imai costumava fazê-lo, segurando o cigarro com a mão livre. Naquele momento, ele não parecia mesmo ter 17 anos. Ou talvez em momento algum ele parecesse o garoto que era.

“Quem falou que eu entendo de mulheres?” Perguntou desconfiado devolvendo a garrafa a Imai. “Alguém… disse alguma coisa?”

Bingo. Imai pensou. Então ele realmente possuía algo a esconder com respeito àquele assunto.

“Não sei… as pessoas dizem muitas coisas, ne?” Deu uma risadinha sarcástica, fingindo saber de algo, esperando que ele se entregasse sozinho.

“Quem, quem disse? Quem sabe?” Ouviu a voz de Atsushi se alterar, sentiu ele se aproximar rápido, tão rápido que Imai não pôde fugir quando o baterista agarrou sua regata com ambas as mãos. Numa delas o cigarro, quente, muito próximo a sua pele. “Não foi ninguém da escola foi? Eu nunca… nunca contei… era mãe de algum deles?”

Estava surpreso. Nunca vira a face de Sakurai daquele jeito. Assustado, acuado e ao mesmo tempo agressivo. Agora sim Atsushi parecia uma fera e não o gatinho medroso de sempre.

Mãe… mulheres mais velhas. Fazia sentido, talvez por isso ele dispensasse as garotas da escola. Se fosse isso, então ele devia ser experiente. Gostava de imaginar que ele fosse, já que Imai também não gostava de garotinhos.

“Temos algo em comum, não é? Eu gosto de rapazes mais velhos, você de mães. O que há de errado? Não se preocupe, ninguém da escola sabe…” Falou com falsa calma. Não que estivesse escondendo o medo, não tinha medo dele. Escondia era o seu crescente interesse. “Seu cigarro está me queimando Sakurai.” Disse um pouco mais firme, sorrindo em seguida.

Atsushi soltou sua regata com um solavanco, empurrando-o, voltando a tragar o cigarro. Imai descobrira seu segredo. Estavam quites agora, não estavam?

Continuaram bebendo, agora em silêncio. Imai dava pequenos goles, deixando para Atsushi os goles maiores. Que malvado que era, tentando embebedar Sakurai.

A garrafa que dividiam não estava nem na metade e o baterista já se sentia alcoolizado, leve. Na realidade, também não costumava beber, embora tivesse mais jeito para isso que Imai.

Imai… Olhou para ele, para o sorrisinho que não saía de seu rosto. Ele estava feliz? Feliz por que Atsushi estava ali? Atsushi e não um daqueles garotos mais velhos? Até mesmo roubara uma bebida para beberem juntos, seria alguma comemoração especial?

Acabou sorrindo também, sorrindo para Imai, devolvendo a garrafa para ele depois de mais um gole. Também estava feliz.

Quando Atsushi lhe devolveu a garrafa, Imai resolveu colocá-la no chão, em vez de beber dela. Precisava agir.

Levantou da cama e sentou no chão, de frente para Atsushi, olhando as cinzas de cigarro que estavam no assoalho. Fingindo-se interessado nelas, tocando-as com a ponta dos dedos.

“Você sujou o chão todo, Sakurai!” Disse mostrando os dedos sujos de cinzas pra ele, rindo.

Ia pedir desculpas, dizer que não tinha cinzeiro, ou que não estava acostumado a fumar dentro de casa. Mas antes que pudesse dizer algo, um arrepio percorreu seu corpo. Imai encostou em seus pés com a ponta dos dedos, sujando-os com as cinzas.

“I-isso faz cócegas!” Protestou, pronto a puxar seus pés, quando Imai os segurou. Os segurou e disse para que relaxasse.

Como iria relaxar com Imai tocando seus pés? Tão levemente, com seus dedos ásperos de guitarrista, ali sentado no chão.  Aquilo só deixava Atsushi nervoso, tenso. Com medo de seu corpo reagir de forma vergonhosa ante ao colega.

Massageou os pés de Sakurai, lentamente, olhando nos olhos dele. Ao poucos ele ia relaxando, suspirando. O que se passaria por sua cabeça? Por que ele não fugia?

Ajoelhou-se de frente para ele, tocando seus joelhos com as mãos, mantendo o olhar firme em seus olhos. Lambeu os lábios e sorriu. Sorriu deslizando as mãos pelas coxas de Sakurai. Esperando que ele o parasse.

Não parou. Não disse não, não disse nada.

Apertou as coxas de Atsushi sem tirar os olhos dos dele, tentando em vão decifrar o que se passava em sua mente.

Sentiu as mãos dele tocarem seus ombros nus. Pensou que seria repelido, mas não. Atsushi o puxou, o puxou com suas mãos fortes.

“Me beija.” Pediu sem conseguir encarar Imai. Puxando-o, fazendo-o novamente ficar de pé.

Aquele pedido abalou Imai. O fez ficar imóvel, de frente para o baterista, olhando incrédulo para ele. Ele queria um beijo. Por que aquilo fazia seu peito doer? Por que, de repente, aquele pedido simples lhe dava vontade de chorar?

Atsushi tremeu levantando seu olhar para Imai, certo de que havia feito algo de errado, imaginando se havia quebrado algum protocolo. Talvez devesse ficar quieto.

Acalmou-se, sentou na cama, encarou Sakurai. Estavam muito próximos. Ergueu suas mãos, tocou o rosto bonito de Atsushi, sujando-o com o resquício de cinzas que ainda havia em seus dedos. Sorriu, mesmo que quisesse chorar. Realmente, gostava daquele tal Sakurai. Ou talvez só houvesse bebido demais.

As mãos de Atsushi voltaram a tocar os ombros de Imai, sentindo sua pele, deslizando por seus braços. Era um homem, Imai era um homem. E queria que ele o beijasse. Queria beijá-lo.

Encararam-se no instante interminável de alguns segundos, arrepiados, quentes. Os corações acelerados como se fosse a primeira vez. Eram dois garotos, só dois garotos.

Um esperava que o outro tomasse a iniciativa, embora ambos não fossem de esperar. Imai sentia-se preso aos olhos de Atsushi, sentia que podia ficar a eternidade olhando para a escuridão que via neles.

Já Atsushi tinha medo, um medo que não sabia explicar. Como se aquele beijo pudesse estragar tudo. Tudo o que? Não sabia.

Aproximaram-se, os dois, devagar. Olhos abertos, os dedos ásperos e sujos de Imai apertando o rosto de Atsushi, as mãos longas e pesadas de Atsushi apertando os ombros arrepiados de Imai. Se beijaram.

Os lábios macios de Sakurai pressionavam-se contra os do guitarrista, esfregavam-se neles, os envolviam. Puxava Imai para mais perto, inclinava-se levemente, esquentava.

O cheiro de Atsushi dominava os sentidos de Imai, o deixava mais tonto do que o sake, mais embriagado que o sake. O cheiro dele misturado com o cheiro de álcool, de cigarro. Aromas que se combinavam.

Desceu as mãos pelo pescoço do baterista, tateando-o, parando no primeiro botão de sua camisa. Abriu o botão, abriu os lábios. Sentiu a língua de Atsushi deslizar tímida por entre eles, enquanto continuava a lhe abrir a camisa.

Era difícil concentrar-se naquela tarefa, suas mãos desabotoavam cada botão de maneira desajeitada, com pressa. Uma pressa que contrastava com o beijo lento de Sakurai, com suas mãos firmes a lhe acariciar os ombros. Atsushi quem devia estar nervoso, era ele o inexperiente com homens.

Decidiu acalmar-se. A casa estava vazia, Sakurai não o rejeitara, não havia motivo para tanta pressa. Iria provar dele com a mesma lentidão que ele o provava.

Suas mãos adentraram a camisa aberta tocando a pele quente de Atsushi, deixando-o ainda mais arrepiado, fazendo seu corpo encolher-se.

O beijo continuava, mais profundo, mais molhado. Atsushi sentia-se perder o controle dele. Pensou que isso o incomodaria, mas não incomodava. As mãos ásperas de Imai não o incomodavam, escorregar as próprias mãos pelo peito dele não o incomodava. A ausência de seios não o incomodava.

Desceu as mãos até a barra da regata de Imai. Afastou-se apenas um pouco, ofegante, sorriu.

Aquele sorriso deixou Imai sem palavras. Aquele sorriso o arrepiava. Não conhecia direito aquele Atsushi, aquele que sorria.

Permitiu que ele tirasse sua regata, enquanto suas próprias mãos hesitantes tiravam a camisa dele. Um abraço, um novo beijo. Pele contra pele, peito contra peito, roçando.

Enlaçou o pescoço dele, queria ficar mais próximo. Tanto que, quando percebeu, já estava no colo de Atsushi.

As mãos do baterista alisavam as costas de Imai, apertavam, sentiam. Parou em sua cintura segurando-o firme. Estava ficando louco. Aceso. Confuso. Sabia que queria, que queria muito, só não sabia o que. Talvez fosse melhor deixar o guitarrista no comando.

Aqueles beijos prosseguiam e Imai sentia Atsushi se entregar, começando a seguir seus movimentos, esperar por eles. Aquilo era uma deixa, concluiu sorrindo.

Saiu do colo dele, levantou da cama, novamente pondo-se de joelhos.

“Vou beijar você de outro jeito agora, Sakurai.”

Sorriu colocando as mãos sobre o cós da calça do outro, quando o sentiu pôr as mãos sobre as suas.

“Atsushi.” Ele disse, também sorrindo, apertando suas mãos por um momento, soltando-as em seguida.

“Atsushi….” Pronunciou lentamente, nunca o chamara pelo primeiro nome. “Vou beijar você de outro jeito agora, Atsushi.”

Abriu o botão da calça, olhando satisfeito para virilha de Sakurai. Apenas uns beijos e ele estava daquele jeito. Devia gostar dos seus beijos.

Olhava atento para Imai, vendo-o despir lhe a calça. Lento, acariciando sua pele nua. Parecia desfrutar do que via. Parecia contente ao perceber sua excitação.

Fez com que abrisse as pernas, sentou no chão, entre elas. Encostou os lábios no interior de uma de suas coxas, beijando, lambendo, provocando arrepios.

Gemeu alto, involuntariamente, cerrando os olhos. Uma de suas mãos apertava o lençol, a outra fora para a nuca de Imai, adentrando seus cabelos.

Outra lambida, outra mordida, outro gemido. Puxou os cabelos dele com uma força que não estava acostumado a usar. Quase pediu desculpas. Teria pedido, se Imai não tivesse sugado sua pele com mais intensidade em resposta ao puxão.

Deixava sua cabeça pender para trás, mordia os lábios, tentava inutilmente conter seus gemidos. Imai subia as mordidas, lentamente, torturando-o. Puxava mais os cabelos dele, com força, ansioso. Queria logo aquele beijo que ele prometera.

Agarrava-se a coxa de Atsushi, sentindo o gosto de suor, sentindo seu cheiro ainda mais forte. Não conseguia mais esperar, por mais que se divertisse com a agonia de Sakurai.

Virou de frente para ele, sorrindo, com ambas as mãos tocando o elástico da roupa íntima que ele vestia. Puxou devagar, mordendo o lábio, suspirando, Gostava do que estava vendo.

Estava nu diante de Imai, num quarto claro, sem nenhuma penumbra para proteger sua nudez. Não estava acostumado com aquilo. Sentia-se mais nu do que já estava, com os olhos do guitarrista o observando daquele jeito.

Umedeceu os lábios passando a língua por eles, deixando-a para fora, tocando com suas duas mãos o pênis de Sakurai. Lambeu, ouviu um gemido, sorriu.

Era gostoso ouvir aqueles gemidos roucos, surpresos. Gemidos de alguém que quase não falava. Gemidos que diziam mais que palavras.

Beijou, lambeu. Roçou os lábios nele, lentamente, aspirando. Sempre olhando para Atsushi, sempre sorrindo. Não costumava sorrir tanto assim.

Arqueava as costas, tremia, puxava mais forte os cabelos de Imai. O incitava a continuar, mais. Queria mais, pedia por mais. Implorava baixinho, entre seus gemidos, implorava pelo beijo de Imai.

Colocou-o em sua boca. Só um pouco, sugando com pouca pressão, deslizando lentamente até ter abocanhado o pênis de Atsushi quase por completo.

Deslizava indo e vindo, deixando-o entrar cada vez mais em sua boca, sufocando-o. Aumentava a pressão, aumentava o ritmo, aumentavam os gemidos.

Uma de suas mãos foi para o meio das próprias pernas, abrindo sua calça com dificuldade. Precisava tocar-se.

Esfregava a mão por cima de sua cueca, dando alguma atenção ao seu pênis dolorido, sem parar de acariciar Atsushi.

Os gemidos eram mais longos, mais roucos, mais altos. Imai o tocava como nenhuma mulher o havia tocado antes. Os lábios daquelas mulheres, mulheres que julgava experientes, eram lábios de virgens perto dos de Imai.

Olhou para ele, olhou para sua mão entre as próprias pernas. Ele estava tentando aliviar-se sozinho.

Colocou as mãos nos ombros dele, o afastou com força, empurrou-o para que deitasse no chão.

Parecia assustado, foi a vez de Atsushi sorrir, puxando a calça aberta do guitarrista junto com sua roupa íntima.

Queria fazer aquilo, queria fazer Imai gemer, pedir por mais. Não importava que ele fosse um homem, ele era Imai. Isso bastava.

Tocou-o entre as pernas, curioso por tocar o pênis de outra pessoa, sentindo-o pulsar entre seus dedos.

Um primeiro gemido.

Levou uma das mãos próxima à boca, lambeu sua palma. Assim iria deslizar melhor, pensou, lembrando dos momentos solitários do começo de sua adolescência.

Deitou-se no chão, entre as pernas de Imai, observando-o atentamente. Tentou imitar os beijos leves do guitarrista, o resvalar dos lábios, erguendo os olhos como que esperando por uma aprovação. Esperando que estivesse fazendo certo.

Não podia acreditar no que estava vendo. No que estava sentindo. Atsushi o tocava intimamente com seus lábios macios, devagar, receoso. Não esperava por isso.

Era fácil conseguir homens para acariciar. Homens que queriam seus lábios. Suas caricias pervertidas. Entretanto, raramente encontrava os que queriam acariciá-lo. Aquela hipocrisia de homens necessitados que não se sentiam gays por causa de uma chupada, mas se sentiriam gays por retribuir o favor. Sakurai, Sakurai era diferente deles. Diferente de todos.

Apoiou-se nos cotovelos para observá-lo melhor, observar sua maneira gentil de beijar.  Gemeu.

Os gemidos baixos e sibilantes de Imai tornavam-se mais constantes. Os beijos e lambidas de Atsushi mais firmes. Sentia-se pronto, pronto para receber Imai entre seus lábios.

Fechou os olhos, não conseguiu ser lento, colocou-o todo na boca de uma vez só. Uma ânsia, ele estava trancando sua garganta, mas não queria recuar.

“Devagar Saku… Atsushi…” Gemeu sentindo os dentes do baterista resvalarem em seu pênis enquanto Atsushi o tirava da boca.

Arfou, tossiu um pouco, abaixou o olhar envergonhado. Iria tentar outra vez. Lento, sentindo Imai aos pouquinhos, acostumando a tê-lo em sua boca.

“Assim…”

Tentava não encostar os dentes, tentava subir e descer ritmado. Usava os gemidos de Imai como guia, deixando que eles dissessem o que precisava fazer.

Ia gozar, teve certeza disso. Não tanto pela habilidade de Atsushi, mas pela simples visão dele o tocando daquele jeito, esforçando-se para lhe dar prazer.

Disse para Atsushi parar, lhe causando certo espanto, erguendo-se do chão. Ofereceu a mão para que o outro fizesse o mesmo, guiando-o para que de deitasse na cama.

Atsushi só entendeu o que Imai parecia ter em mente quando guitarrista também se deitou, contudo, ficando com a cabeça para o lado onde estavam os pés do baterista.

Ajeitaram-se na cama para que pudessem acariciar um ao outro simultaneamente. Com as mãos, com os lábios, tocando-se com cada vez mais desespero.

Não havia espaço para gemidos, já que ambos tinham os lábios ocupados. Não havia espaço para calma, para movimentos lentos.

O gozo estava próximo e ele veio primeiro para Atsushi, que não sabia como avisar Imai de que ia gozar. Apertou uma de suas coxas, como se fosse uma maneira de fazê-lo parar, no entanto ele continuava os movimentos.

Imai havia entendido o recado, mas não queria parar, não via necessidade para isso. Queria sentir Atsushi, sentir o gosto de Atsushi. Continuou a sugá-lo mesmo depois que sentiu o líquido quente invadindo-lhe a boca.

Aquele gosto, os lábios de Atsushi, o cheiro, o suor. Também não iria mais agüentar. Usou o mesmo sinal que Sakurai usara, para mostrar estava chegando ao ápice, dando a chance de Atsushi acariciá-lo apenas com as mãos se assim quisesse.

Não quis. Pareceu-lhe uma questão de honra sentir Imai gozar em sua boca. E a idéia de como seria aquela sensação fez Sakurai sugar com mais intensidade, mais velocidade, mesmo que se sentisse sufocar.

Ao sentir os primeiros espasmos Imai gemeu, agora livre do pênis de Atsushi, não acreditava que ele iria fazer aquilo. Que iria querer sentir o seu gosto.

Não conseguia mais respirar. Sentia-se tonto, entorpecido pelo próprio gozo, enlouquecido com Imai pulsando em sua boca. O gosto forte invadindo seu paladar, aquele gosto estranho, desconhecido. O gosto de Imai.

Precisava de ar, precisava arfar. Mas só o fez quando ouviu o último gemido de Imai. Permitindo que a sua respiração descompassada se unisse a dele.

Silêncio. Não havia nada além do som de suas respirações e do tagarelar de seus pensamentos.

Imai não acreditava no que acabara de fazer com seu colega de classe, colega de banda. Com o garoto estranho e calado que o costumava seguir. Embora fosse seu plano provar o corpo dele naquele fim de tarde, sequer cogitara a possibilidade de ele querer provar o seu.

Atsushi estava confuso. Havia engolido o sêmen de um homem, acariciado um homem com seus lábios. Não que o problema fosse esse. O problema era o fato de não parecer haver problema nisso. De não lhe parecer errado.

Nenhum dos dois parecia querer se mover. Fosse para se aconchegar no outro ou para afastar-se. Demorou algum tempo até que Imai tomasse a iniciativa, sentando-se na cama. Com Atsushi fazendo o mesmo logo em seguida.

Entreolharam-se. Imai sorriu, espreguiçando-se, encostando levemente sua cabeça no ombro do outro.

“Você beija bem, Sakurai…” Riu.

“Atsushi…”

“Você beija bem, Atsushi…”

***

Atsushi estava sentado à mesa na cozinha de sua casa, vendo Imai andar de um lado para o outro, preparando algo para o almoço. Embora já fosse quase hora do jantar.

Fazia uma semana que o vocalista recebera alta no hospital e desde então Imai não saia de sua casa. Ficava ali, fazendo qualquer coisa, sem deixar Atsushi sozinho um momento que fosse.

Encolheu-se na cadeira, olhando os curativos em suas mãos, apertando-as em punho. Aquilo causava dor, sentia as feridas não cicatrizadas arderem devido à pressão que fazia. E nem aquela dor era suficientemente forte para afastar a angustia que sentia.

“Imai, eu não agüento mais isso!” Exclamou, chamando a atenção do guitarrista. “Por que, por que você me ignora, por que não fala comigo?”

Viu-o lançar um olhar interrogativo, segurando uma faca em uma das mãos e um molho de ervas na outra.

“Você fica andando pela minha casa como se fosse uma assombração, me seguindo, não me deixa sozinho um momento sequer. Ignora totalmente o que aconteceu, não me faz perguntas, não me acusa, não faz nada. Desde quando eu estava no hospital! Por que Imai, por quê?”

A voz de Atsushi soava magoada, suas mãos doíam, e quanto mais aumentava a dor, mais forte as apertava.

Imai respirou fundo e soltou o ar audivelmente, colocando os temperos e a faca em cima da pia, andando na direção do vocalista.

“Ótimo, Atsushi. Eu estou aqui cuidando de você, evitando que você se descontrole e faça algo estúpido de novo e você diz que eu o persigo como se fosse uma assombração.” Disse cruzando os braços, olhando firme para o outro. “Então, se prefiro não fazer perguntas para poupar você da humilhação de tentar explicar o que houve, isso quer dizer que o estou ignorando?”

O olhar de Imai o intimidava. Não conseguia encará-lo. Sentia-se envergonhado pelo que fizera e, conviver assim com o guitarrista ao seu lado só fazia sua vergonha aumentar.

“O que você quer? Quer que eu me sinta culpado pelo que aconteceu? Eu me sinto, acredite. Mesmo sabendo que não tenho culpa, não desse fato em si. Mas a culpa maior é minha, sempre vai ser minha. Fui eu quem começou isso tudo.”

A voz de Imai estava alterada. Não por raiva, não era isso. Ela soava triste, dolorida. Atsushi teve vontade de abraçá-lo forte e pedir desculpas. Desculpas por tantas coisas que sequer sabia dizer por qual queria se desculpar.

“Não é sua culpa. Não é, não se culpe.” Disse levantando-se da cadeira, receoso, acabando com a pouca distância entre eles. “Que direito eu tenho de ter ciúmes de você? Que direito eu tenho de deixar você triste, de prendê-lo aqui cuidando de mim. Sempre cuidando de mim…” Murmurou erguendo uma de suas mãos para afagar o rosto de Imai.

“Nenhum direito” O guitarrista falou baixo, descruzando os braços. “Imagine se eu me cortasse toda vez que visse você com uma vadia pendurada no pescoço… Eu já teria morrido se me desse ao direito de ter ciúmes.”

“Ah Imai…” Atsushi disse antes de abraçar o amigo, apertando-o em seus braços. “Seria errado se eu dissesse… que me sentiria feliz se você se desse esse direito?”

Silêncio. Um longo instante de silêncio.

As mãos de Imai subiram tímidas pelas costas de Atsushi. Aquelas costas que antes possuíam fios longos e negros cascateando por elas.

O guitarrista não entendia o motivo de seu coração bater tão forte. Não entendia a vontade de sorrir e chorar ao mesmo tempo.

Realmente, gostava daquele Sakurai. Atsushi. E aquilo, certamente, ainda o mataria.

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Havia meia hora que Atsushi não fazia qualquer movimento. Apenas olhava fixamente para a TV, ali sentado no sofá da própria sala. E, mesmo que olhasse para o aparelho, sequer prestava atenção nele. Pois não notava que o vídeo que assistia há muito acabara, restando na tela da TV apenas o chiado e os chuviscos do fim da fita.

Era certo que estava perdido nos próprios pensamentos, no próprio tédio, na própria melancolia.

Sentia que devia estar grato por ter algum descanso, que devia estar feliz por poder ficar em sua própria casa sem ter qualquer compromisso ou obrigação. Sabia que em algum momento havia clamado por um pouco de paz, reclamado do cansaço.

Mas não era aquele tipo de descanso que queria. Não queria ficar trancado em sua casa sentindo-se inútil, ao passo que ele –Imai– parecia tão ocupado. Imai tinha seus próprios projetos, não dependia da vontade de Atsushi para fazer o que quisesse. Tantos contatos, tantos amigos. De que Atsushi era útil para ele? Era só alguém que estragava as melodias do guitarrista com suas letras melancólicas e pobres.

Odiava sentir-se um estorvo, um peso que os outros indulgentemente aceitavam carregar. Alguém que só causaria problemas, que só atrasava a vida de todos.

Abraçou uma almofada enfurnando seu rosto nela, apertando como se quisesse privar a si mesmo do ar. Sufocando-se de propósito, sem luta, contente em sentir a tontura e o torpor naturais de quem é impedido de respirar.

Desejava ser salvo. Ansiava por alguém puxasse que seus cabelos longos e o impedisse de partir. Queria que sua gata miasse tristemente pedindo que parasse com aquela loucura.

Nada. Apenas o chiado da televisão e a respiração pesada de Atsushi se faziam ouvir. Era tão fraco que não possuía sequer a capacidade acabar com a própria vida sem uma platéia.

***

Yutaka estava com os braços cruzados, batendo um dos pés nervosamente enquanto esperava por Imai.

Não imaginava que iria aparecer no estúdio durante aquelas férias, no entanto precisou fazê-lo. Necessitava falar com o guitarrista pessoalmente ou ele não o ouviria.

Um sorriso se fez em seu rosto, desfazendo por um momento a expressão preocupada que estava estampada nele, ao ver Imai vindo em sua direção.

“Yuuta, o que aconteceu? Até achei que fosse uma brincadeira quando disseram que estava aqui…” Murmurou ao se aproximar, enxugando o rosto com uma toalha que trazia nos ombros.

Imai não parecia abalado. Não parecia qualquer coisa que não fosse sonolento. Será que imaginava o assunto que levara Yutaka até ali?

“Eu sinto muito Imai kun… Mas precisava lhe falar pessoalmente. O Acchan, o Acchan ele…” Começou a dizer, sabendo que talvez não fosse correto ir direto ao ponto, quando Imai o interrompeu.

“O Sakurai, O Sakurai… É sempre ele, não é? O que foi dessa vez? Ele se casou? Engravidou alguma coitada? Ficou bêbado e foi parar no hospital? Por que eu sempre tenho que ser responsável pelas idiotices dele?” Falou rapidamente sem parar de enxugar o rosto, sem qualquer alteração em sua expressão, mesmo usando palavras que soavam duras aos ouvidos de Yuuta.

Os olhos do baixista se desviaram para o chão. Não desejava ouvir tais palavras, ainda que já estivesse preparado para aquele tipo de reação.

“Imai kun, não seja tão duro, por favor. Se eu vim lhe procurar, é por que você é o único que pode fazer algo. O único a quem o Acchan ouve.” Disse com sua voz baixa, sussurrada, levantando o olhar numa tentativa de parecer firme.

“Sei que não é sua responsabilidade. Sei que o Imai kun não tem nenhuma obrigação… mas…” Yutaka continuou, apertando o tecido das próprias mangas, numa atitude infantil que quebrou a aparente indiferença de Imai.

“Está bem Yuu, já entendi. Não estou brigando com você, está bem? Agora diga, o que aquele idiota fez dessa vez…” Suspirou, parando de enxugar o rosto e olhando para Yutaka.

Aquela era uma longa estória. Uma estória tão antiga e que a cada dia ficava maior, ganhando novos capítulos, parecendo cada vez mais longe de ter um final feliz.

Tinha ciência que de nada adiantaria fazer rodeios. Contudo, não queria que Imai achasse que era algo simples e sem importância. Que pensasse ser só mais uma das crises de Atsushi. Yutaka estava certo que daquela vez era sério, que o vocalista não estava nada bem.

“Faz semanas que venho tentando tirar o Acchan de casa. Não só eu, pelo que sei, e ele se recusa a sair. A voz dele… ela parece tão triste, Imai, tão distante.” Yuuta começou, tentando colocar emoção nas próprias palavras a fim de comover seu amigo.

“Sim e a novidade, qual é?” Imai perguntou, tentando não ser rude com Yutaka, por mais que fosse impossível suas palavras não soarem sarcásticas.

“Imai kun!” Exclamou. “É sério, é realmente sério. Não se lembra como ele ficou quando você anunciou que iria aproveitar nossa pausa para trabalhar no seu projeto? Estou certo que essa apatia do Acchan tem relação com isso…” Disse tentando acalmar-se, odiando pensar que suas palavras não estavam surtindo efeito em Imai.

O guitarrista já tinha na ponta da língua um bom par de respostas nem um pouco bonitas, porém preferiu calar-se. Yutaka não merecia suas respostas malcriadas, afinal não fizera nada de errado. Só estava preocupando-se, como sempre, com a felicidade de todos. Admirava a abnegação que U-ta apresentava ao tratar dos problemas dos seus amigos, embora isso quase sempre acabasse trazendo problemas a Imai.

“Vou procurar ele. Vou procurar o idiota do Atsushi e sacudi-lo até que se recomponha, está bem? Eu prometo… Agora venha, venha ver o que acha do som que estou fazendo.” Imai sorriu, um sorriso que infelizmente não era verdadeiro, tentando distrair U-ta.

De nada adiantaria dizer para seu amigo que não ligava mais para os showzinhos de Atsushi. Que estava cansado de ter que correr atrás do vocalista toda vez que ele tinha uma de suas crises.

U-ta, por sua vez, também sorriu. Um sorriso largo, verdadeiro. Balançando a cabeça para dizer que iria com Imai, ouvir o que ele estava ensaiando.

***

Imai praguejou um sem número de vezes, olhando para aquela porta. A porta do apartamento de Atsushi. Pensava em como fora parar ali, em que força era essa que fazia seus passos dirigirem-se até aquele lugar.

Por mais que não quisesse admitir, acabara se preocupando com o vocalista. Bastou chegar em casa e ficar um minuto sozinho para as palavras de U-ta martelarem em sua mente.

Por que Atsushi ficaria abalado daquele jeito? Não, não podia ser por conta do projeto que Imai estava fazendo. Que sentido havia nisso? Nenhum sentido.

E não ter sentido era o que dava a Imai a certeza de que aquela alternativa possuía muitas chances de ser a correta. Vindo de Atsushi, o motivo mais absurdo sempre era o mais certo para sua apatia.

Resolveu por fim apertar a campainha e encarar o vocalista. Não tinha motivos para sentir-se culpado. Não havia nada a temer.

Atsushi pareceu recobrar a consciência ao ouvir o som da campainha, saindo do sofá num salto, assustado. O barulho estridente fazia seu coração bater acelerado, como se aquele fosse um sinal de que algo horrível acontecera. De que alguém vinha lhe trazer alguma noticia ruim.

Correu pela sala até chegar ao corredor e finalmente abrir a porta de entrada, esbaforido.

Embora o guitarrista se julgasse preparado para qualquer cena assustadora e deprimente, era sempre um baque ficar cara a cara com Atsushi daquele jeito.

O rosto tão pálido contrastando com olheiras escuras, profundas. Os lábios secos, os cabelos desgrenhados. Umas roupas muito largas, amassadas, uns andrajos perto das vestes vistosas que costumavam adorná-lo. Pés descalços tocando o piso frio, sem sequer meias para protegê-los. Uma visão perturbadora, em todos os sentidos.

Os olhos negros de Atsushi arregalaram-se. Seus dedos compridos automaticamente dirigiram-se aos cabelos para tentar arrumá-los, logo após seguindo as mãos para suas roupas, batendo nelas rapidamente, como se apenas isso fosse capaz de desamassá-las. A tentativa inútil do vocalista para recompor-se só tornava aquele quadro mais degradante do que já estava.

Imai pensou em dar lhe um soco, ainda que fosse fraco demais para bater em Atsushi. Pensou em pegar o vocalista pelos ombros e sacudi-lo fortemente até que saísse daquele transe auto-imposto. Pensou em fazer qualquer coisa que fosse, quando seus pensamentos foram abruptamente interrompidos.

O vocalista o abraçou de súbito, agarrando-se nele. Apertando o tecido da regata que Imai vestia, sufocando-o com seu desespero.

Se havia pensamentos racionais em Imai, estes foram tirados à força de sua mente por Atsushi. Ele dominava os sentidos do guitarrista naquele abraço, fazendo com que sentisse uma forte e inexplicável sensação de nostalgia.

“Você veio… você voltou para mim… meu Imai” Foram as únicas palavras do vocalista, enquanto cessava o abraço colocando ambas as mãos no rosto de Imai.

Aquelas mãos grandes o apertavam, faziam Imai sentir-se pequeno envolto nelas. Calado diante dos olhos grandes de Atsushi que parecia poder devorá-lo a qualquer momento.

E foi isso que ele fez. Puxou o guitarrista para dentro do apartamento sem dar-se ao trabalho de fechar a porta, empurrando-o para uma parede do corredor.

Prensou seu corpo contra o de Imai, sentindo um estranho contentamento por ele parecer tão frágil, tão magro. Fazia Atsushi sentir-se forte, sentir que poderia fazer o que quisesse com ele, fosse à vontade do guitarrista ou não.

Pensou haver ouvido algum protesto de seu amigo. Mas não se deixou ter certeza de que havia reclamações. Preferiu calar aquela voz sibilante com seus lábios. Estava com sede, com sede dele.

Imai sentia-se tonto. Suas mãos dirigiram-se para as roupas de Atsushi. Queria afastá-lo. Queria fugir dele. E essa sua vontade sequer durou até que estivesse com as mãos segurando a camisa do vocalista.

Em vez de repeli-lo, o puxava, deixava suas coxas entreabertas para que Atsushi roçasse no meio delas. Matasse as saudades que sentia, fazendo Imai começar a pensar que também sentira falta dele.

Podia viver sem Atsushi, desde que seus olhares não se cruzassem. Que o cheiro dele não lhe invadisse as narinas, que o gosto não lhe dominasse o paladar.

Uma vez perto dele, uma vez sentindo os dedos compridos adentrarem suas roupas, nada poderia fazer para frear aquele desejo. Iria arrepender-se por alimentar a loucura de Atsushi, mas não naquele momento. Isso ficaria para o depois.

***

Abriu os olhos, encarando sonolento o teto, tentando lembrar em que momento o havia pintado daquela cor e de onde tirara a idéia de comprar um lustre tão brega. Era tão exagerado que parecia coisa do At… Atsushi. Estava no quarto de Atsushi!

Teve um sobressalto, se sentando na cama, olhando em volta assustado. Por um momento não se lembrava como fora parar ali e nem o porquê de estar sem roupas.

Bastou uns poucos segundos para avistar o vocalista deitado de bruços ao seu lado. Dormindo, com nada além dos cabelos pretos a lhe cobrir o corpo.

Suspirou audivelmente colocando uma das mãos no rosto. Por que precisou ser preso por porte de drogas, naquela curiosidade de como seria sentir-se dopado, se podia ter uma overdose completamente legalizada sempre que quisesse?

Perdia o controle, perdia o tino. Esquecia quem era, onde estava. E nem se lembrava desde quando o outro possuía tanto controle assim sobre o seu desejo. Como Imai iria imaginar que pagaria um preço tão alto por querer brincar com o garoto bonito com cara de gatinho assustado? Ninguém lhe avisou que sua alma ficaria para sempre presa a ele no dia que provasse o seu corpo.

“Imai…?” Ouviu a voz manhosa de Atsushi, que não demonstrava nada da tristeza que U-ta tanto falara. Fora enganado e sabia disso.

“O Imai voltou para mim?” O vocalista perguntou, aproximando-se de Imai, ficando por cima dele.

Perguntava-se onde estava sua dignidade. Para onde fora sua melancolia. Sentia-se tão bem, como se a presença de Imai houvesse dissipado toda a tristeza de seu coração.

“Não Atsushi, eu não voltei. Não voltei por que não fui a lugar algum!” Imai chispou, cruzando os braços, olhando firme para Atsushi. “Eu só deixei meus ensaios de lado porque Yutaka veio dizer que o senhor não queria sair de casa, que estava enfornado aqui. E obviamente a culpa era minha, já que sou sempre o responsável por todos os seus problemas” Disse no mesmo tom áspero de antes, esforçando-se para não se abalar diante do olhar triste que o vocalista começara a lhe lançar.

As palmas das mãos de Atsushi estavam uma de cada lado do corpo de Imai, apoiadas na cama. E ele continuava ali por cima do guitarrista, o olhando em silêncio.

Não soube se devia ficar triste pelas palavras duras que ouvia ou se devia ficar feliz pelo outro se preocupar. Talvez devesse calar a voz de Imai novamente, beijando-o e fazendo com que esquecesse a própria raiva.

“Sinto… muito” Murmurou saindo de cima do amigo, sentando ao seu lado na cama, apoiando as costas na cabeceira dela e puxando um travesseiro para seu colo. De repente sentia vergonha da própria nudez. “Não era minha intenção preocupar o Yuchan… nem desviar sua atenção dos ensaios…”

Olhou o vocalista com o canto dos olhos. Odiava-o quando agia daquele jeito. Era tão típico… tão típico daquele Atsushi.

Sentiu falta, por um momento, do Atsushi que não se deixava consolar. Do adolescente arredio que escondia seus problemas. Que fazia Imai ter de arrancá-los, um a um. Para que assim pudesse consolar seu amigo.

“É por causa… do meu projeto que você está assim?” Imai foi direto ao ponto, procurando com os olhos onde estariam suas roupas. Não conseguia sentir-se sério nu como estava.

Abaixou a cabeça, encolhendo-se, se sentindo frágil. Nem para si mesmo conseguia admitir que o projeto solo do amigo o abalara daquele jeito. Não queria que fosse tão obvio para ele que isso o estava afetando.

“Não é tão simples assim… eu só… queria que você precisasse de mim. Mas não precisa… você pode fazer o que quiser. Eu não, eu estou preso a você, Imai” Falou fechando os olhos, abaixando um pouco a cabeça, deixando que seus cabelos cobrissem lhe a face.

Estava de pé, com suas roupas nas mãos, olhando fixamente para Atsushi. Não esperava aquelas palavras. Não esperava que esse fosse o motivo de sua tristeza.

Um homem tão belo, um que qualquer pessoa desejaria. Que tem o mundo a seus pés. Por que estava se humilhando assim?

Teve vontade de abraçá-lo. Teve vontade de gritar com ele. Fazer amor com ele, machucar seu corpo. Ficar ao seu lado, deixá-lo de vez. Toda aquela loucura, aquela mistura de sensações dúbias que só Atsushi podia lhe causar.

Voltou a subir na cama, respirando profundamente, largando as roupas que estava segurando.

Uma de suas mãos tocou um ombro de Atsushi. Viu o corpo dele tremer com o toque, encolher-se com medo. Imai não queria ser o causador daquilo. Não se julgava merecedor da dor de Atsushi.

“Acchan, pare com isso. Eu só estou me divertindo com meus amigos enquanto a banda está de férias. Todos estavam precisando descansar e é isso que estou fazendo. Essa é minha forma de descansar. Você devia encontrar a sua também. Vá… saia com o Yutaka, saia com seus amigos… viaje! Só não fique aqui se enchendo de auto piedade…” Imai falou, mantendo a voz calma, afagando o ombro de Atsushi.

Não era bom com as palavras. Imaginava que Yuuta poderia estar consolando Atsushi de maneira mais eficiente, mas era como o baixista dizia, Atsushi não ouvia a mais ninguém.

***

“Imai kun, por favor, mais ninguém tem coragem de falar com ele…” Yutaka pediu, unindo as palmas das mãos e curvando-se levemente diante de Imai.

Imai suspirou passando a mão pelos cabelos, sentindo-se derrotado pelo garoto mais novo. Que diabos… não conseguia resistir aos pedidos de Yutaka quando ele os fazia tão veemente.

O garoto não tinha culpa de precisar pedir aquilo. Era o vice representante da própria classe, no segundo ano, e fora coagido pelo representante da sala de Imai a falar com Sakurai, já que eram da mesma banda. Contudo, nem mesmo Yutaka tinha coragem para tanto.

O jovem guitarrista pensou que seria melhor o representante da classe ter deixado Yutaka em paz e pedido o favor diretamente. Embora, provavelmente Atsushi não fosse atender a um pedido do representante da classe. Aquele cara devia ser bem esperto em usar Yuuta para seus planos.

“Está bem Higuchi. Vou falar com o Sakurai, porém, isso não quer dizer muita coisa. Ele não vai ajudar na feira cultural de qualquer maneira. Mas você… você, o representante do terceiro ano, deviam parar de ter medo dele. O Hoshino parece bem mais assustador e ninguém o teme.” Imai disse, cruzando os braços, olhando intrigado para o sorriso de Yutaka.

“O Hoshino kun é como um grande urso, ainda que pareça assustador, temos vontade de abraçá-lo. Já o Sakurai kun têm algo nos olhos que faz todos terem medo de se aproximar.”

Não pôde não rir, passando uma das mãos no cabelo do garoto menor, achando graça daquela comparação tão boba. Hoshino, um urso, só mesmo na cabeça de Yutaka. Para Imai, ele mais parecia um gorila.

“O Sakurai está mais para um gatinho assustado do que para uma fera. Você perceberia isso se começasse a falar com ele. Ou falar para ele, já que ele não fala mesmo. Mas para quem consegue aturar o Hoshino, não me parece uma tarefa muito difícil…”

Riram, se despediram, e Imai ficou se perguntando por que aceitara tão prontamente o dever de tentar convencer Sakurai a participar da feira cultural. Afinal, nem o próprio Imai queria participar de algo tão idiota. Pelo menos era melhor do que ter aula, o que não queria dizer que era algo bom de qualquer jeito.

O horário de almoço logo iria acabar, precisava resolver aquilo depressa, para inventar uma desculpa na enfermaria e conseguir ser dispensado das atividades físicas da tarde.

Decidiu procurar Atsushi no terraço, o lugar mais provável e óbvio para encontrar um delinqüente juvenil. Aquele garoto se esforçava tanto para ser malvado que mais parecia uma caricatura de algum mangá para adolescentes.

Riu consigo mesmo ao chegar ao terraço e se deparar com Atsushi encostado à parede, com aquele olhar cansado que lhe era habitual. Imaginava o que o outro tanto fazia à noite para estar sempre daquele jeito. Isso é, se não ficava apenas vendo TV até tarde, só para acordar com aquela expressão de noite mal dormida.

“Oe, Sakurai!” Imai chamou, falando propositalmente com um toque do sotaque típico dos filmes de Yakuza. Será que Atsushi já havia percebido que falava com ele daquele jeito para tirar com sua pinta de Yankee?

“Você podia se esconder num lugar mais difícil, sabia? Se o coordenador das turmas passasse menos tempo espiando as garotas no banheiro, você já teria sido suspenso!” Falou no mesmo tom, sentando-se ao lado do baterista, estranhando aquele cheiro que vinha dele. Atsushi cheirava como um homem adulto.

Viu o outro garoto encolher-se, abraçando os joelhos, escondendo o rosto neles. Estaria envergonhado? Não parecia algo do feitio dele.

“Me deixa em paz” Foi o que Atsushi disse, com a voz abafada por conta de estar com o rosto pressionado contra os joelhos.

Imai balançou a cabeça, perguntando como alguém podia ter medo daquele garoto. Ele pedindo para que o deixasse em paz, mais parecia implorar para que não o deixasse ali sozinho.

Será que mais ninguém, além de Imai, notava que Sakurai só queria chamar a atenção? Que aqueles olhos grandes mais pareciam os de um filhote perdido do que os de alguém assustador?

“O festival. Você vai ter que fazer alguma coisa. E não adianta dizer ‘não’. Se você se recusar o Yuuta vai ouvir por você. Nosso representante está coagindo ele, provavelmente fez algum tipo de ameaça caso você não participe.” Imai mentiu, só um pouco, para aumentar a gravidade dos fatos. “Obviamente Yutaka é um bom garoto, não teria coragem de persuadir você a fazer algo que não quer. Por isso eu estou aqui. Se acontecer algo com nosso baixista, a banda vai ter problemas. Está entendendo?” Imai continuou, esforçando-se para não rir do próprio sotaque que estava tentando dissimular.

Atsushi levantou a cabeça, olhando para Imai. Não entendia por que ele falava daquela maneira estranha quando estavam só os dois juntos. Entretanto, sentia um tipo de contentamento por o guitarrista falar com ele de maneira diferenciada.

Não queria participar do tal festival. Não se sentia bem perto de todas aquelas pessoas, não queria ter que interagir com ninguém. Entretanto, não pensou que isso pudesse trazer problemas para Higuchi.

“O… que eu preciso fazer?” Perguntou desviando os olhos para o chão, apertando o tecido da própria calça.

Imai sorriu levantando a cabeça, olhando para o céu. Até que gostava, daquele tal Sakurai.

***

Mesmo que não agisse imediatamente, Atsushi sempre acabava ouvindo Imai. Fazendo as coisas que ele pedia ou simplesmente dizia que tinha que fazer.

Quase sempre se tratavam fatos que outras pessoas já haviam se cansado de falar. Coisas que o próprio vocalista possuía consciência que eram corretas ou necessárias. Entretanto, parecia precisar de uma ordem expressa de Imai, como se vindo dele qualquer coisa fizesse mais sentido.

Isso era esquisito, especialmente se levasse em conta o quanto costumava discordar de Imai. Perdera a conta de quantas vezes os dois acabaram brigando e atrasando as decisões da banda por isso. E ainda assim, sentia-se totalmente dependente da opinião dele. Como se só fizesse coisas estúpidas quando agisse por conta própria.

Resolveu achar sua maneira de descansar naquela pausa. Encontrou conhecidos, bebeu, saiu com algumas garotas vistosas. Até mesmo se envolveu com uma delas naquele meio tempo, além de ajudar no álbum de um amigo junto a Hide.

Nem era do seu feitio fazer tanta coisa em tão pouco tempo. Mas se via obrigado a ocupar seus dias, já que não queria dar mais motivos para preocupar seus amigos.

Sabia que novas músicas estavam sendo preparadas. Não tinham nada pronto para o álbum novo, contudo, o esboço dele já estava sendo feito, ainda que Imai continuasse envolvido com o próprio projeto.

Naquele dia Atsushi inventou uma desculpa mental qualquer para precisar ir ao estúdio. Algo sobre precisar de alguns documentos, não sabia ao certo, uma vez que se esquecera daquela desculpa antes mesmo de entrar no prédio da gravadora.

O que queria de verdade era ver Imai, embora não fosse admitir isso. Queria falar com ele, mostrar que estava bem. Pois, apesar de já terem se reencontrado algumas vezes, não se falaram diretamente. Só estavam bebendo junto dos mesmos amigos. Além de que, o fato de Atsushi estar acompanhado nessas ocasiões provavelmente houvesse atrapalhado uma aproximação.

Aquilo nem mesmo era uma situação incomum entre eles. Num momento ele e Imai pareciam dividir a mesma alma. No entanto, no momento seguinte, a distância entre eles parecia tão grande que sequer conseguiam se falar.

Suspirou frente à porta da sala de ensaios, decidindo entrar logo, já que fora até ali. Não devia ter nada de estranho em querer assistir o ensaio do seu companheiro de banda.

“Maki!” Atsushi exclamou ao entrar na sala, talvez como uma forma de cumprimento ou quem sabe surpreso por vê-lo sozinho ali. Afinal fora informado que todos estariam fazendo o ensaio final para um show do projeto.

Admirou-se da própria conversação com aquele homem. Eram todos amigos no fim das contas, não devia ficar enciumado só por que Imai queria fazer música com ele.

“Mas… onde está Imai?” Resolveu perguntar depois de um tempo, tentando não mostrar-se tão interessado assim em saber o paradeiro do guitarrista.

Intrigou-se com a expressão do outro. Ele parecia fazer rodeios, o que deixou Atsushi desconfiado de que Maki estava tentando esconder algo.

“O Imai… ele foi ao banheiro” Disse sem graça, um pouco amedrontado com o olhar de Atsushi.

O vocalista quis disfarçar a própria desconfiança, mudar de assunto. No entanto, quando deu por si, estava saindo da sala usando um pretexto qualquer.

Banheiro… Até parecia uma mentira de alguém do primário. Se Maki não queria dizer onde Imai estava, pelo menos podia ter sido um pouco mais criativo.

Percebeu-se irritado, andando em passos largos, querendo sair logo dali. Apesar disso, resolveu passar no banheiro daquele andar. Quem sabe Imai não estivesse mesmo lá?

Entrou no lugar. Um banheiro masculino comum, que não costumava usar. Afinal a banda tinha um banheiro privado.

Apoiou as duas mãos na cuba da pia, abrindo a torneira, usando a água para molhar o próprio rosto. Sua aparência no espelho, de repente, lhe pareceu tão cansada como quando estava se lamentando em casa.

Preparava-se para ir embora, quando um barulho chamou sua atenção. Um barulho de algo batendo contra alguma das portas dos reservados. Sequer se dera conta de que havia mais alguém no banheiro.

Outra vez e outra em seguida, agora acompanhada de um murmúrio muito baixo. Um murmúrio sibilante… conhecia aquilo!

Um arrepio percorreu seu corpo. Sentiu medo diante da imagem que se formou em sua mente. Era Imai, Imai quem estava naquele reservado.

Andou em passos lentos até a porta de onde o ruído parecia vir, tentando abafar o barulho dos próprios passos, colando o ouvido na porta.

Ali pode ouvir sussurros. Gemidos que se confundiam com os que julgava ser de Imai. Roucos, masculinos, gemendo palavras… em inglês.

A mão de Atsushi fechou-se em punho. Sentiu vontade de socar aquela porta. De socar Imai, de arrancá-lo dali e bater nele.

Então era isso que Maki estava escondendo. Devia ter desconfiado, Imai não resistiria, não é? Não resistiria àquele inglês.

Não se preocupou mais em fazer barulho ou não, saindo apressado do banheiro, batendo a porta de saída.

Odiava Imai. Odiava Imai mais do que qualquer coisa.

***

A mãe de Imai recebeu Atsushi com sua costumeira simpatia lhe dizendo para subir, que seu filho estava em casa, estudando com um amigo.

Na realidade, qualquer um poderia ir ao quarto de Imai sem passar pelo ritual de pedir licença para a mãe dele ou mesmo bater à porta.

Pelo jeito, os familiares dele estavam acostumados a grande quantidade de jovens que iam ao quarto de Imai para ouvir seus discos e seus comentários sobre bandas, filmes ou qualquer coisa que fosse.

Naquela cidade pequena, com tantas pessoas iguais, que se contentavam com suas vidas medíocres, alguém como Imai se destacava. Tornava-se alguma espécie de ídolo ou de messias a quem todos queriam ouvir.

Atsushi não era diferente daquelas pessoas. Julgava-se até pior que elas, já que a aparente normalidade de suas vidas o invejava. Por muito tempo, se formar e ser um assalariado parecia o único sonho que podia ter. E, ainda assim, não lhe parecia um sonho tangível.

Porém, as coisas mudaram quando conheceu Imai e se deixou atrair pelo brilho dele, pela grandiosidade de suas palavras. Naquele momento, uma vida simples lhe pareceu a pior coisa que poderia querer.

Lembrava que das primeiras vezes que estivera no quarto dele, o guitarrista sequer sabia seu nome. Pensava que, mesmo depois, ele ainda o devia confundir com outro colega qualquer, embora estudassem juntos desde o segundo ano.

Apesar de não gostar de aglomerações, Atsushi não conseguia evitar o desejo de estar perto de Imai. Querer ouvi-lo, ainda que nem sempre entendesse das coisas que ele falava, como se simplesmente estar perto dele o fizesse uma pessoa melhor.

Esse fora o motivo que levara Atsushi a se candidatar à banda que Imai estava formando. Escolhendo um instrumento com o qual não tinha afinidade, apenas por ser o único que faltava para completar a banda.

Sabia que um baterista não era algo simples de se arranjar, assim, se aproveitou desse fato para ficar mais próximo daquele garoto que admirava. Para que pudesse falar com ele e, principalmente, para que o outro lhe falasse.

Chegou à porta do quarto de Imai, pensando se devia bater. Ele estaria mesmo estudando? Atsushi não se lembrava de haver alguma prova marcada, apesar de não ser um bom aluno, ainda assim costumava ao menos saber as datas dos testes.

Resolveu colar o ouvido na porta, a fim de verificar se Imai e o outro garoto tratavam realmente de assuntos escolares. Não iria atrapalhar se esse fosse o caso.

Nada. Chegou a pensar, num primeiro momento, que não havia ninguém ali. Que os dois deviam ter saído de casa sem informar a mãe do guitarrista, tamanho o silêncio do outro lado da porta.

Talvez devesse bater. Apesar de que ninguém batesse à porta de Imai. Quem sabe fosse melhor ir embora já que não tinha nenhuma desculpa concreta para estar ali.

E, ao contrario das hipóteses que se formaram em sua mente, Atsushi resolveu abrir a porta do quarto de Imai. Muito lentamente, espiando pela fresta que se formava, a fim de verificar se havia alguém no local.

Havia.

Um desconhecido sentado na beirada da cama, alguém que certamente não estudava na escola deles, até por que não tinha aparência de ainda estar no colégio. Não era um garoto como os dois, e sim um homem feito. Devia ter, no mínimo, uns vinte anos.

Era certo ele e Imai não estavam estudando. Entretanto, Atsushi não teve tempo para se perguntar o que aquele homem fazia ali, já que o guitarrista apareceu no seu campo de visão respondendo a qualquer dúvida que pudesse ter.

O rapaz mais jovem ajoelhou-se entre as pernas daquele homem que Atsushi desconhecia, puxando suas calças desajeitadamente. Com pressa, como se desejasse muito livrar-se das roupas dele.

Sabia que podia ser visto caso um dos dois olhasse para o lado, porém o risco não era grande o bastante para fazer o baterista sair do estado de letargia em que se encontrava.

Via-se assustado com aquela cena, enojado com ela. Não podia acreditar em seus olhos, não podia acreditar nos lábios de Imai a acariciar aquele homem. Tão íntima e profundamente que, por um momento, Atsushi teve inveja dele.

Fechou a porta sem se importar de fazê-lo lentamente, saindo dali o mais depressa que pôde.

Não queria que ninguém o visse naquele momento. Que visse sua face transtornada ou o volume que certamente se formara entre suas pernas.

Sentia-se traído. Traído como nunca se sentira antes.

Odiava Imai, odiava-o por conseguir destruir o primeiro sonho feliz que conseguira sonhar.

***

Imai amaldiçoou a si mesmo um sem número de vezes, imaginando todas as possíveis broncas e sermões que receberia de U-ta.

Conseguia ver, se fechasse os olhos, a expressão decepcionada no rosto do baixista. Podia até mesmo ouvir o tom de desaprovação que sairia de seus lábios finos.

Odiava isso. Odiava sentir-se culpado sem ter feito nada de errado. Odiava ser acusado e julgado pela própria consciência sem ao menos ter uma chance para se defender.

E ela falava com a voz baixa de Yutaka, dizendo que precisava procurar Atsushi, desculpar-se com ele. Inventar alguma explicação, afirmar que era um mal entendido. Qualquer coisa.

Ao mesmo tempo, outra parte de si dizia que não devia explicação alguma. Diabos! Não era nada de Atsushi, nada além de amigo e companheiro de banda. Não era um marido que devia pedir perdão à esposa traída.

Sequer traíra Atsushi! Como podia traí-lo se não tinha, nem nunca tivera, compromisso algum com ele?

Tentou acalmar-se, sentando-se no sofá da própria sala, ascendendo um cigarro. Não podia passar a vida correndo atrás de Atsushi. Se ele era mimado daquele jeito, a culpa era sua por sempre fazer as vontades dele.

Sim, pensou passando uma das mãos pelo cabelo, tragando seu cigarro. Não iria atrás do vocalista. Agiria como se não soubesse que ele estivera naquele banheiro. Ou até, como se soubesse, mas deixando claro que não se importava que ele tivesse ciência de que estava transando com Raymond ou com quem quer que fosse.

O próprio Atsushi estava com uma garota agora, não estava? Pois que ficasse com ela!

Parou por um momento, deixando seu corpo escorregar pelo sofá. Não, talvez não fosse bom que Atsushi ficasse com ela. Ou iria acabar casado como da última vez.

“Mas que merda!” Exclamou com o cigarro entre os lábios. Por que tinha que ser sempre o responsável por todos os problemas do idiota do Atsushi?

***

Não conseguia parar de rir, rir da própria face refletida no espelho que havia em uma das paredes de seu quarto. Era tão engraçado, tão patético! Parecia uma mulher com aquele cabelo, como não se dera conta disso antes?

Trouxe mais uma vez a garrafa de vodka aos lábios, entornando-a, bebendo dela um grande gole. Já era a segunda daquela noite.

Voltou a fitar-se. Odiava o reflexo que estava vendo. Vociferou contra ele, contra ela. Contra a maldita vagabunda que o olhava no espelho.

“A culpa é sua! A culpa é sua do Imai estar me traindo!” Gritou, ameaçando o reflexo com a garrafa. “O Imai nunca gostou de mulheres, ele gosta de homens! Por isso ele está fodendo com aquele inglês. Ele sabe como tratar o Imai, diferente de você, vadia, vadia!” Repetia, sentindo lágrimas molharem sua face, bebendo um último gole da vodka, jogando a garrafa vazia com toda a força contra o espelho.

Queria que aquela mulher fosse embora. Queria que ela sumisse para que Imai novamente o quisesse. Queria ser novamente um homem para ele.

O espelho despedaçado, assim como a garrafa, cobria o chão com vários estilhaços. Alguns deles grandes o suficiente para Atsushi conseguir ver o próprio rosto. O rosto da mulher que o assombrava.

Tentou chutar aqueles cacos, mas seus pés descalços se feriram, raspando nos fragmentos.

Caiu de joelhos no chão, sem importar-se com a dor em seus pés, ou agora em seus joelhos, apoiados naqueles cacos.

As lágrimas que tinha nos olhos não vinham da dor em seu corpo. Ela era pequena, mesmo que o fizesse sangrar, diante da dor que sentia dentro de si. Seu coração, este sim, estava ferido, ferido mortalmente. Agonizante por conta da traição de Imai.

“Por que não vai embora? Por que não me deixa ser feliz? Isso é uma vingança?” Perguntava com a voz bêbada, chorosa, agarrando um estilhaço do espelho em uma das mãos.

Sua força ao segurar aquele pedaço de vidro fazia com que cortasse a própria mão. No entanto, isso parecia não lhe importar.

Voltou a rir, rindo como se zombasse daquela mulher, satisfeito por encontrar uma forma de acabar com ela.

Com a mão livre puxou uma mecha do próprio cabelo, com tanta força que o fez gemer involuntariamente, trazendo-a para perto do estilhaço de espelho que segurava.

Começou a forçar o caco contra o cabelo, cortando aquela mecha com alguma dificuldade, mais se machucando do que se livrando dela.

Ainda que doesse, estava satisfeito, e repetiu a tarefa até não ter mais força em sua mão ensangüentada.

Não desistiu. Não desistiria agora que via a mulher desfigurada, sem os cabelos longos que tanto a orgulhavam.

Tomou o caco na outra mão e voltou a cortar, rindo, chorando. Tosando o cabelo até que nenhuma mecha ultrapassasse seus ombros, até que não tivesse força em nenhuma das mãos cortadas.

“Você perdeu.” Disse com uma risada, deixando seu corpo cair ao chão, sentindo alguns cacos menores perfurando seu rosto. “O Imai vai ser meu agora, só meu!” Foram suas ultimas palavras antes que fechasse os olhos, crente de haver exorcizado aquele fantasma.

***

Yutaka estava sentado no corredor do hospital, num banco desconfortável, próximo ao quarto onde agora Atsushi descansava.

Queria fumar, mas não se permitia sair dali. Não até que Imai aparecesse.

Tamborilava os dedos em seus joelhos, nervoso, cansado por esperar. Prometendo a si mesmo que faria Imai tirar a carta de motorista de uma vez por todas. Se ele dirigisse, não demoraria tanto para chegar naquele hospital!

Por um lado, era sua culpa não ter chamado mais ninguém, mas Imai precisava saber antes dos outros. Pelo menos isso era o que a consciência de U-ta dizia.

Imaginava que o fato de haver encontrado Atsushi desacordado e sangrando tinha alguma ligação com o guitarrista. E enquanto Atsushi continuasse inconsciente, Imai era a única pessoa que podia ajudar Yutaka a desvendar aquele mistério.

Não fazia sentido aquela recaída de Atsushi. Parecia tudo tão bem desde que ele e Imai fizeram as pazes. O que era isso agora?

Por mais que Acchan bebesse e tivesse alguns instintos suicidas, Yuuta nunca julgou que ele fosse levar a cabo uma daquelas tentativas. Embora as pessoas cortassem os pulsos, e não os cabelos, quando queriam se matar.

“Onde está aquele idiota?” U-ta ouviu uma voz branda perto de si e levantou a cabeça apenas para certificar-se do óbvio, era Imai.

“Me diga onde ele está, eu quero matá-lo com minhas próprias mãos.” Continuou no mesmo tom, sem qualquer emoção na própria voz, ainda que dissesse aquelas coisas que soavam horríveis a Yutaka.

“Imai kun, não diga uma coisa dessas!” Yuuta exclamou, olhando Imai sentar-se ao seu lado e tirar um maço de cigarros do bolso da calça.

“Você está ficando repetitivo Yuu… está até parecendo nosso amigo suicida.” Disse com falso desdém, tirando um cigarro do maço e o colocando entre os lábios.

Os olhos de U-ta estreitaram-se. Sua mão pequena tirou o cigarro da boca de Imai, amassando-o, mostrando o quanto o guitarrista conseguira irritá-lo.

Imai suspirou, fechando os olhos, deixando suas costas escorregarem um pouco pela parede, se preparando para ouvir os sermões de Yutaka.

“Eu estava indo à casa dele, nós tínhamos combinado de ver alguns filmes juntos. Estranhei o Atsushi não atender a campainha e resolvi forçar a porta. Para minha surpresa ela estava aberta, assim eu entrei, chamando pelo Acchan.” O baixista começou a falar, sem que Imai pedisse qualquer explicação. “Nada, apenas a gata dele veio ao meu encontro. Então resolvi olhar no quarto dele… e ele estava no chão, com os cabelos cortados, no meio de um monte cacos daquele espelho que ele tem na parede. As mãos dele estavam cheias de sangue, Imai! Mesmo para o Acchan, isso não é algo comum. Ele nunca fez nada assim, não algo grave desse jeito!” U-ta falava sem parar, gesticulando, tentando convencer Imai da gravidade daquela situação.

Era o culpado, mais uma vez era o culpado da desgraça de Atsushi. E dessa vez ele fora longe demais.

“O Atsushi me flagrou fazendo sexo num banheiro do estúdio. Quer dizer, ele não viu nada, nem eu o vi. Mas eu sei que era ele e ele sabe que era eu. Só pode ter sido… isso.” Suspirou colocando as duas mãos no rosto, esfregando-o, como que tentando acordar.

U-ta ficou calado. Aquele parecia um bom motivo para o que Atsushi fizera, embora não fosse uma boa razão. Imai já tivera tantos casos, tantos namorados e Acchan nunca agira daquela forma…

“Não vai me dizer que, por um acaso, essa pessoa do banheiro é um dos membros do seu projeto!” Yutaka exclamou, jogando o cigarro despedaçado que tinha em uma das mãos no lixeiro ao seu lado, sem parar de olhar para Imai.

O guitarrista arqueou uma das sobrancelhas, confuso. Onde diabos Yuu queria chegar com aquilo?

“Qual… a relação?” Perguntou não compreendendo a expressão de Yuuta, parecia até que estava fazendo uma pergunta idiota.

“Se ele achava que você não precisava mais dele, já que você pode ter um projeto sozinho, o que me diz de você indo para cama com uma dessas pessoas? Está simplesmente dizendo que os membros do seu projeto podem substituir ele em todos os âmbitos!” Acusou, apontando o dedo para Imai.

E essa agora. Será que sequer podia viver sua vida sem precisar decifrar os enigmas da cabeça de Atsushi? Por que aquilo parecia tão fácil e lógico para Yutaka e não fazia sentido algum para Imai?

Yuu tinha jeito para babá. Daria um bom par para Atsushi, já que ele sempre parecia precisar de uma.

“Então a culpa novamente é de Hisashi Imai.” Cruzou os braços, olhando derrotado para o chão, quando sentiu a pequena mão de U-ta afagar-lhe um dos ombros.

“Não, Imai kun, dessa vez a culpa é só do Acchan.” Disse suavemente, tão suavemente que por um momento Imai estava certo de que aquilo era um sonho.

“Mas mesmo sendo culpa dele, alguém precisa curar as feridas que ele fez. Se eu pedir isso, você faz? Por mim?” Perguntou sem nenhum resquício do ódio de antes em seu olhar. Fazendo Imai sentir-se estúpido por antecedência, sabendo que não iria conseguir lhe negar aquele pedido.

***

Imai conseguia ver seu pai lhe virando as costas, sua mãe aos prantos sentindo-se culpada, culpada pelo guitarrista ser o que era.

Tivera sorte de não ter sido ela quem o flagrara com aquele homem em seu quarto. Contudo, seu descuido permitiu que Sakurai o visse. Estava nas mãos dele agora.

Não conseguiu dormir naquela noite, pensando que palavras usaria para convencer o outro a guardar seu segredo. Se é que ele já não espalhara para todos a notícia.

Chegando à escola, Imai olhava desconfiado para seus colegas, temendo todos os sorrisos e risadinhas. Parecia que eles sabiam, que todos cochichavam, mudavam de assunto quando chegava perto.

Entretanto, Sakurai não estava ali. Aquilo nem mesmo era anormal, mas naquele dia parecia que o baterista fizera de propósito para deixar Imai ainda mais desesperado.

Não agüentou esperar que a aula começasse. Saiu correndo da sala, indo para o terraço, o lugar óbvio onde Sakurai sempre se escondia.

Chegou ao lugar arfando, nervoso, passando a mão pelos cabelos. Onde estava Atsushi?

O procurou com o olhar, andou pelo terraço, e nada dele. Aquele moleque inútil não podia fazer isso. Não o podia torturar daquele jeito.

Sentou-se no chão escorando suas costas na parede, abraçando os joelhos. Aquela atitude e o rosto cansado pela noite sem dormir, faziam-no parecer tão patético quanto o Sakurai…

“Imai…?” Ouviu a voz grave, sentiu aquele cheiro que tanto o intrigava, nem precisaria abrir os olhos para saber que era ele. Sakurai Atsushi.

Isso. Estava de olhos fechados. Sequer havia percebido que estivera dormindo. Dormindo no terraço do colégio como um delinqüente juvenil.

Sakurai o olhava, de pé, na frente de Imai. Seu torso um pouco inclinado, como se tivesse feito isso para que o guitarrista ouvisse melhor o seu chamado.

“Sakurai…” Imai disse, tentando buscar em sua mente as palavras que havia ensaiado, as coisas que poderia oferecer em troca do silêncio de Atsushi, enquanto o via sentar-se ao seu lado no chão.

Gaguejou olhando o rosto dele, notando que sua expressão parecia mais cansada que o habitual e que havia alguns arranhões em sua face. Arranhões que desciam por seu pescoço até serem ocultados pela gola da camisa que Sakurai vestia.

“Eu sei… que era você ontem.” Falou finalmente, desviando o olhar de Atsushi, olhando para o chão. “Ouvi quando alguém bateu a porta e levantei correndo pensando que era minha mãe. Por sorte, não era ela. Mas ela me disse que você esteve lá.” Estava nervoso, contudo tentava manter a voz firme. Não queria que Sakurai percebesse o quanto aquilo o abalara.

“Você devia trancar a porta do quarto.” Atsushi começou, levantando um pouco uma das barras de sua calça, procurando os cigarros e o isqueiro que tinha escondidos na meia. “E eu devia bater antes de entrar.” Falou por fim, acendendo o cigarro e tragando-o em seguida.

Imai ficou atônito. Não pelo cigarro, embora nunca tivesse visto Atsushi fumar, aquilo não o surpreendia. Era sua reação, suas palavras, o que impressionaram o guitarrista. Não esperava aquilo. Esperava que Sakurai o ignorasse, que o chantageasse, que lhe desse uma surra.

“O que foi? O cigarro incomoda?” Atsushi perguntou, sem entender a expressão de Imai. Ele não parecia o mesmo de sempre, até sua maneira de falar não era a habitual de quando estavam juntos.

“Não, não me incomoda.” Murmurou incrédulo. “Não vai fazer… nenhuma pergunta sobre o que viu ontem?”

Atsushi expeliu a fumaça lentamente, olhando atento para ela, observando-a dissipar-se no ar.

Queria esquecer do que vira no dia anterior. Aquela simples memória trazia efeitos indesejados ao seu corpo. Efeitos que nem a mulher com quem se encontrou naquela noite fora capaz de remediar.

O que diria a ele? Que queria que ele tivesse contado que fazia aquelas coisas? Que se sentia traído de uma forma estranha por não saber daquele fato? Não tinha intimidade alguma com Imai para exigir aquele tipo de confidência. Não tinha o direito de se sentir traído.

Aquele silêncio de Sakurai o agoniava. Era a primeira pessoa próxima que sabia o seu segredo, a primeira que o flagrara. Precisava saber o que ele pensava.

Ele não o parecia repudiar por aquilo. Isso era algo bom, não era? Levando em conta que Imai tentava esconder o fato de gostar de homens até dos amigos íntimos, com medo de perder a amizade deles.

“Você só faz isso com caras mais velhos?” Quebrou o silêncio, segurando o cigarro entre os dedos de uma das mãos, tocando o próprio rosto com a outra. Descendo-a por seu pescoço até parar na gola da camisa que vestia.

Imai pôde jurar, por um momento, que Atsushi estava se insinuando. Que a maneira elegante de segurar o cigarro entre seus longos dedos, seu olhar cansado e profundo, seus lábios úmidos, tudo isso era apenas para seduzi-lo.

É. Só fazia isso com caras mais velhos… Mas talvez pudesse abrir uma exceção.

***

Imai passou algum tempo arquitetando seu plano. Tentando convencer seus pais que seria uma ótima idéia visitar alguns familiares em Tóquio, passar o fim de semana fora e deixá-lo tomando conta de tudo. Afinal era um garoto crescido e responsável, um que precisava estudar para muitas provas.

Essa parte do plano fora fácil. Nunca tivera problemas em convencer seus pais a fazerem suas vontades. Especialmente quando fazia parecer que só estava pensando neles.

Além de conseguir a casa deserta, precisava preparar o terreno. Não podia agir rápido demais, afinal Sakurai era arredio. Um passo em falso e ele escaparia entre seus dedos, era o que Imai pensava.

Começou a falar mais com ele, em vez de só procura-lo quando precisava passar algum recado. A convidá-lo para aparecer em sua casa após as aulas, a dar atenção para ele.

Queria saber coisas sobre a vida do baterista. Desejava saber quanta experiência ele tinha, que tipo de garota o atraía. Entretanto, não era fácil arrancar dele aquelas informações. Não era fácil ganhar sua confiança.

Soube que Atsushi era popular entre as garotas da escola, embora nunca tivesse saído com nenhuma delas. Estranhou isso. Ele parecia implorar tanto por atenção, por que dispensar aquelas garotas?

Havia um grande mistério. Gostava disso.

Aquele seria o grande dia. Após o ensaio, cansados, convidou Sakurai para ir a sua casa. Iria lhe emprestar alguns discos, essa era sua desculpa.

“Pode se sentar.” Disse com certa educação, apontado para sua cama, aproximando-se do armário onde guardava seus discos.

Atsushi olhava em volta, sentando-se, sentindo um arrepio estranho. Havia algo de diferente naquele dia. Um silêncio, uma tensão. Algo que não conseguia d escrever.

“Onde estão seus pais?” Perguntou olhando Imai tirar uma garrafa de trás de seus discos.

“Ah, eles foram passar o fim de semana em Tóquio, ou algo assim.” Falou, aproximando-se de Atsushi com a garrafa de sake em mãos. Dera trabalho roubar aquilo da coleção de seu pai. “Espero não ser sake de cozinha!” Riu olhando o rótulo, como que se certificando de haver roubado a garrafa certa.

Os pais de Imai não estavam em casa. Havia sake. Os discos eram apenas uma desculpa? Por que ele precisaria de uma desculpa?

Sem perceber, estava apertando o tecido dos lençóis da cama do guitarrista, encolhendo-se, olhando para o chão. Estava com medo?

“Pode fumar se quiser.” Imai disse, sorrindo enquanto abria a garrafa, sentando-se ao lado de Atsushi na cama, mantendo certa distancia entre eles.

Desde aquele dia no terraço que não o via fumar. Achara aquilo tão atraente, gostaria de ver Sakurai fumando outra vez.

Bebeu um gole daquele sake, do gargalo mesmo, achando-o forte demais. Não estava acostumado a beber, talvez tivesse sido melhor roubar cerveja.

Atsushi tirou uma das meias e depois a outra, ficando completamente descalço. Pegou dois cigarros amassados e o isqueiro que havia nelas, deixando-as no chão.

Colocou um cigarro sobre a cama, entre ele e Imai, e o outro em seus lábios. Não costumava fumar na frente dos outros. Acendeu e deixou o isqueiro também sobre a cama, tragando sem olhar para o guitarrista.

Outro gole. Olhou para o rosto de Sakurai, para seus lábios, suas mãos bonitas, seus pés nus. Nunca o tinha visto descalço. Não soube o motivo, mas sentiu-se hipnotizado ao olhar seus pés.

“Eu escolhi mal, Sakurai? Não gosta de sake?” Perguntou sacudindo a cabeça, tentando sair do transe em que se encontrava.

Atsushi finalmente olhou em sua direção. Não esperou uma resposta dele, apenas ofereceu a garrafa para que ele a pegasse, levantando da cama em seguida.

Foi até o aparelho de som, colocando um disco para tocar, sentindo-se levemente tonto com o pouco de sake que já havia bebido. Esperava que a bebida fizesse efeito rápido em Atsushi também.

“Esse sake é bom.” Ouviu Sakurai dizer. “Espero que seu pai não dê falta dele, é uma marca bem cara.”

Imai não sabia que era uma marca cara. E pensar que Atsushi sabia disso lhe deu medo de que aquela garrafa não fosse suficiente para deixar o baterista bêbado.

“Você entende de bebidas, Sakurai? Cigarros, bebidas… mulheres? Você tem mesmo 17 anos?” Riu deixando a música tocar, voltando para sentar-se na cama, dessa vez mais perto de Atsushi.

Ele virava a garrafa, bebendo com menos receio do que Imai costumava fazê-lo, segurando o cigarro com a mão livre. Naquele momento, ele não parecia mesmo ter 17 anos. Ou talvez em momento algum ele parecesse o garoto que era.

“Quem falou que eu entendo de mulheres?” Perguntou desconfiado devolvendo a garrafa a Imai. “Alguém… disse alguma coisa?”

Bingo. Imai pensou. Então ele realmente possuía algo a esconder com respeito àquele assunto.

“Não sei… as pessoas dizem muitas coisas, ne?” Deu uma risadinha sarcástica, fingindo saber de algo, esperando que ele se entregasse sozinho.

“Quem, quem disse? Quem sabe?” Ouviu a voz de Atsushi se alterar, sentiu ele se aproximar rápido, tão rápido que Imai não pôde fugir quando o baterista agarrou sua regata com ambas as mãos. Numa delas o cigarro, quente, muito próximo a sua pele. “Não foi ninguém da escola foi? Eu nunca… nunca contei… era mãe de algum deles?”

Estava surpreso. Nunca vira a face de Sakurai daquele jeito. Assustado, acuado e ao mesmo tempo agressivo. Agora sim Atsushi parecia uma fera e não o gatinho medroso de sempre.

Mãe… mulheres mais velhas. Fazia sentido, talvez por isso ele dispensasse as garotas da escola. Se fosse isso, então ele devia ser experiente. Gostava de imaginar que ele fosse, já que Imai também não gostava de garotinhos.

“Temos algo em comum, não é? Eu gosto de rapazes mais velhos, você de mães. O que há de errado? Não se preocupe, ninguém da escola sabe…” Falou com falsa calma. Não que estivesse escondendo o medo, não tinha medo dele. Escondia era o seu crescente interesse. “Seu cigarro está me queimando Sakurai.” Disse um pouco mais firme, sorrindo em seguida.

Atsushi soltou sua regata com um solavanco, empurrando-o, voltando a tragar o cigarro. Imai descobrira seu segredo. Estavam quites agora, não estavam?

Continuaram bebendo, agora em silêncio. Imai dava pequenos goles, deixando para Atsushi os goles maiores. Que malvado que era, tentando embebedar Sakurai.

A garrafa que dividiam não estava nem na metade e o baterista já se sentia alcoolizado, leve. Na realidade, também não costumava beber, embora tivesse mais jeito para isso que Imai.

Imai… Olhou para ele, para o sorrisinho que não saía de seu rosto. Ele estava feliz? Feliz por que Atsushi estava ali? Atsushi e não um daqueles garotos mais velhos? Até mesmo roubara uma bebida para beberem juntos, seria alguma comemoração especial?

Acabou sorrindo também, sorrindo para Imai, devolvendo a garrafa para ele depois de mais um gole. Também estava feliz.

Quando Atsushi lhe devolveu a garrafa, Imai resolveu colocá-la no chão, em vez de beber dela. Precisava agir.

Levantou da cama e sentou no chão, de frente para Atsushi, olhando as cinzas de cigarro que estavam no assoalho. Fingindo-se interessado nelas, tocando-as com a ponta dos dedos.

“Você sujou o chão todo, Sakurai!” Disse mostrando os dedos sujos de cinzas pra ele, rindo.

Ia pedir desculpas, dizer que não tinha cinzeiro, ou que não estava acostumado a fumar dentro de casa. Mas antes que pudesse dizer algo, um arrepio percorreu seu corpo. Imai encostou em seus pés com a ponta dos dedos, sujando-os com as cinzas.

“I-isso faz cócegas!” Protestou, pronto a puxar seus pés, quando Imai os segurou. Os segurou e disse para que relaxasse.

Como iria relaxar com Imai tocando seus pés? Tão levemente, com seus dedos ásperos de guitarrista, ali sentado no chão.  Aquilo só deixava Atsushi nervoso, tenso. Com medo de seu corpo reagir de forma vergonhosa ante ao colega.

Massageou os pés de Sakurai, lentamente, olhando nos olhos dele. Ao poucos ele ia relaxando, suspirando. O que se passaria por sua cabeça? Por que ele não fugia?

Ajoelhou-se de frente para ele, tocando seus joelhos com as mãos, mantendo o olhar firme em seus olhos. Lambeu os lábios e sorriu. Sorriu deslizando as mãos pelas coxas de Sakurai. Esperando que ele o parasse.

Não parou. Não disse não, não disse nada.

Apertou as coxas de Atsushi sem tirar os olhos dos dele, tentando em vão decifrar o que se passava em sua mente.

Sentiu as mãos dele tocarem seus ombros nus. Pensou que seria repelido, mas não. Atsushi o puxou, o puxou com suas mãos fortes.

“Me beija.” Pediu sem conseguir encarar Imai. Puxando-o, fazendo-o novamente ficar de pé.

Aquele pedido abalou Imai. O fez ficar imóvel, de frente para o baterista, olhando incrédulo para ele. Ele queria um beijo. Por que aquilo fazia seu peito doer? Por que, de repente, aquele pedido simples lhe dava vontade de chorar?

Atsushi tremeu levantando seu olhar para Imai, certo de que havia feito algo de errado, imaginando se havia quebrado algum protocolo. Talvez devesse ficar quieto.

Acalmou-se, sentou na cama, encarou Sakurai. Estavam muito próximos. Ergueu suas mãos, tocou o rosto bonito de Atsushi, sujando-o com o resquício de cinzas que ainda havia em seus dedos. Sorriu, mesmo que quisesse chorar. Realmente, gostava daquele tal Sakurai. Ou talvez só houvesse bebido demais.

As mãos de Atsushi voltaram a tocar os ombros de Imai, sentindo sua pele, deslizando por seus braços. Era um homem, Imai era um homem. E queria que ele o beijasse. Queria beijá-lo.

Encararam-se no instante interminável de alguns segundos, arrepiados, quentes. Os corações acelerados como se fosse a primeira vez. Eram dois garotos, só dois garotos.

Um esperava que o outro tomasse a iniciativa, embora ambos não fossem de esperar. Imai sentia-se preso aos olhos de Atsushi, sentia que podia ficar a eternidade olhando para a escuridão que via neles.

Já Atsushi tinha medo, um medo que não sabia explicar. Como se aquele beijo pudesse estragar tudo. Tudo o que? Não sabia.

Aproximaram-se, os dois, devagar. Olhos abertos, os dedos ásperos e sujos de Imai apertando o rosto de Atsushi, as mãos longas e pesadas de Atsushi apertando os ombros arrepiados de Imai. Se beijaram.

Os lábios macios de Sakurai pressionavam-se contra os do guitarrista, esfregavam-se neles, os envolviam. Puxava Imai para mais perto, inclinava-se levemente, esquentava.

O cheiro de Atsushi dominava os sentidos de Imai, o deixava mais tonto do que o sake, mais embriagado que o sake. O cheiro dele misturado com o cheiro de álcool, de cigarro. Aromas que se combinavam.

Desceu as mãos pelo pescoço do baterista, tateando-o, parando no primeiro botão de sua camisa. Abriu o botão, abriu os lábios. Sentiu a língua de Atsushi deslizar tímida por entre eles, enquanto continuava a lhe abrir a camisa.

Era difícil concentrar-se naquela tarefa, suas mãos desabotoavam cada botão de maneira desajeitada, com pressa. Uma pressa que contrastava com o beijo lento de Sakurai, com suas mãos firmes a lhe acariciar os ombros. Atsushi quem devia estar nervoso, era ele o inexperiente com homens.

Decidiu acalmar-se. A casa estava vazia, Sakurai não o rejeitara, não havia motivo para tanta pressa. Iria provar dele com a mesma lentidão que ele o provava.

Suas mãos adentraram a camisa aberta tocando a pele quente de Atsushi, deixando-o ainda mais arrepiado, fazendo seu corpo encolher-se.

O beijo continuava, mais profundo, mais molhado. Atsushi sentia-se perder o controle dele. Pensou que isso o incomodaria, mas não incomodava. As mãos ásperas de Imai não o incomodavam, escorregar as próprias mãos pelo peito dele não o incomodava. A ausência de seios não o incomodava.

Desceu as mãos até a barra da regata de Imai. Afastou-se apenas um pouco, ofegante, sorriu.

Aquele sorriso deixou Imai sem palavras. Aquele sorriso o arrepiava. Não conhecia direito aquele Atsushi, aquele que sorria.

Permitiu que ele tirasse sua regata, enquanto suas próprias mãos hesitantes tiravam a camisa dele. Um abraço, um novo beijo. Pele contra pele, peito contra peito, roçando.

Enlaçou o pescoço dele, queria ficar mais próximo. Tanto que, quando percebeu, já estava no colo de Atsushi.

As mãos do baterista alisavam as costas de Imai, apertavam, sentiam. Parou em sua cintura segurando-o firme. Estava ficando louco. Aceso. Confuso. Sabia que queria, que queria muito, só não sabia o que. Talvez fosse melhor deixar o guitarrista no comando.

Aqueles beijos prosseguiam e Imai sentia Atsushi se entregar, começando a seguir seus movimentos, esperar por eles. Aquilo era uma deixa, concluiu sorrindo.

Saiu do colo dele, levantou da cama, novamente pondo-se de joelhos.

“Vou beijar você de outro jeito agora, Sakurai.”

Sorriu colocando as mãos sobre o cós da calça do outro, quando o sentiu pôr as mãos sobre as suas.

“Atsushi.” Ele disse, também sorrindo, apertando suas mãos por um momento, soltando-as em seguida.

“Atsushi….” Pronunciou lentamente, nunca o chamara pelo primeiro nome. “Vou beijar você de outro jeito agora, Atsushi.”

Abriu o botão da calça, olhando satisfeito para virilha de Sakurai. Apenas uns beijos e ele estava daquele jeito. Devia gostar dos seus beijos.

Olhava atento para Imai, vendo-o despir lhe a calça. Lento, acariciando sua pele nua. Parecia desfrutar do que via. Parecia contente ao perceber sua excitação.

Fez com que abrisse as pernas, sentou no chão, entre elas. Encostou os lábios no interior de uma de suas coxas, beijando, lambendo, provocando arrepios.

Gemeu alto, involuntariamente, cerrando os olhos. Uma de suas mãos apertava o lençol, a outra fora para a nuca de Imai, adentrando seus cabelos.

Outra lambida, outra mordida, outro gemido. Puxou os cabelos dele com uma força que não estava acostumado a usar. Quase pediu desculpas. Teria pedido, se Imai não tivesse sugado sua pele com mais intensidade em resposta ao puxão.

Deixava sua cabeça pender para trás, mordia os lábios, tentava inutilmente conter seus gemidos. Imai subia as mordidas, lentamente, torturando-o. Puxava mais os cabelos dele, com força, ansioso. Queria logo aquele beijo que ele prometera.

Agarrava-se a coxa de Atsushi, sentindo o gosto de suor, sentindo seu cheiro ainda mais forte. Não conseguia mais esperar, por mais que se divertisse com a agonia de Sakurai.

Virou de frente para ele, sorrindo, com ambas as mãos tocando o elástico da roupa íntima que ele vestia. Puxou devagar, mordendo o lábio, suspirando, Gostava do que estava vendo.

Estava nu diante de Imai, num quarto claro, sem nenhuma penumbra para proteger sua nudez. Não estava acostumado com aquilo. Sentia-se mais nu do que já estava, com os olhos do guitarrista o observando daquele jeito.

Umedeceu os lábios passando a língua por eles, deixando-a para fora, tocando com suas duas mãos o pênis de Sakurai. Lambeu, ouviu um gemido, sorriu.

Era gostoso ouvir aqueles gemidos roucos, surpresos. Gemidos de alguém que quase não falava. Gemidos que diziam mais que palavras.

Beijou, lambeu. Roçou os lábios nele, lentamente, aspirando. Sempre olhando para Atsushi, sempre sorrindo. Não costumava sorrir tanto assim.

Arqueava as costas, tremia, puxava mais forte os cabelos de Imai. O incitava a continuar, mais. Queria mais, pedia por mais. Implorava baixinho, entre seus gemidos, implorava pelo beijo de Imai.

Colocou-o em sua boca. Só um pouco, sugando com pouca pressão, deslizando lentamente até ter abocanhado o pênis de Atsushi quase por completo.

Deslizava indo e vindo, deixando-o entrar cada vez mais em sua boca, sufocando-o. Aumentava a pressão, aumentava o ritmo, aumentavam os gemidos.

Uma de suas mãos foi para o meio das próprias pernas, abrindo sua calça com dificuldade. Precisava tocar-se.

Esfregava a mão por cima de sua cueca, dando alguma atenção ao seu pênis dolorido, sem parar de acariciar Atsushi.

Os gemidos eram mais longos, mais roucos, mais altos. Imai o tocava como nenhuma mulher o havia tocado antes. Os lábios daquelas mulheres, mulheres que julgava experientes, eram lábios de virgens perto dos de Imai.

Olhou para ele, olhou para sua mão entre as próprias pernas. Ele estava tentando aliviar-se sozinho.

Colocou as mãos nos ombros dele, o afastou com força, empurrou-o para que deitasse no chão.

Parecia assustado, foi a vez de Atsushi sorrir, puxando a calça aberta do guitarrista junto com sua roupa íntima.

Queria fazer aquilo, queria fazer Imai gemer, pedir por mais. Não importava que ele fosse um homem, ele era Imai. Isso bastava.

Tocou-o entre as pernas, curioso por tocar o pênis de outra pessoa, sentindo-o pulsar entre seus dedos.

Um primeiro gemido.

Levou uma das mãos próxima à boca, lambeu sua palma. Assim iria deslizar melhor, pensou, lembrando dos momentos solitários do começo de sua adolescência.

Deitou-se no chão, entre as pernas de Imai, observando-o atentamente. Tentou imitar os beijos leves do guitarrista, o resvalar dos lábios, erguendo os olhos como que esperando por uma aprovação. Esperando que estivesse fazendo certo.

Não podia acreditar no que estava vendo. No que estava sentindo. Atsushi o tocava intimamente com seus lábios macios, devagar, receoso. Não esperava por isso.

Era fácil conseguir homens para acariciar. Homens que queriam seus lábios. Suas caricias pervertidas. Entretanto, raramente encontrava os que queriam acariciá-lo. Aquela hipocrisia de homens necessitados que não se sentiam gays por causa de uma chupada, mas se sentiriam gays por retribuir o favor. Sakurai, Sakurai era diferente deles. Diferente de todos.

Apoiou-se nos cotovelos para observá-lo melhor, observar sua maneira gentil de beijar.  Gemeu.

Os gemidos baixos e sibilantes de Imai tornavam-se mais constantes. Os beijos e lambidas de Atsushi mais firmes. Sentia-se pronto, pronto para receber Imai entre seus lábios.

Fechou os olhos, não conseguiu ser lento, colocou-o todo na boca de uma vez só. Uma ânsia, ele estava trancando sua garganta, mas não queria recuar.

“Devagar Saku… Atsushi…” Gemeu sentindo os dentes do baterista resvalarem em seu pênis enquanto Atsushi o tirava da boca.

Arfou, tossiu um pouco, abaixou o olhar envergonhado. Iria tentar outra vez. Lento, sentindo Imai aos pouquinhos, acostumando a tê-lo em sua boca.

“Assim…”

Tentava não encostar os dentes, tentava subir e descer ritmado. Usava os gemidos de Imai como guia, deixando que eles dissessem o que precisava fazer.

Ia gozar, teve certeza disso. Não tanto pela habilidade de Atsushi, mas pela simples visão dele o tocando daquele jeito, esforçando-se para lhe dar prazer.

Disse para Atsushi parar, lhe causando certo espanto, erguendo-se do chão. Ofereceu a mão para que o outro fizesse o mesmo, guiando-o para que de deitasse na cama.

Atsushi só entendeu o que Imai parecia ter em mente quando guitarrista também se deitou, contudo, ficando com a cabeça para o lado onde estavam os pés do baterista.

Ajeitaram-se na cama para que pudessem acariciar um ao outro simultaneamente. Com as mãos, com os lábios, tocando-se com cada vez mais desespero.

Não havia espaço para gemidos, já que ambos tinham os lábios ocupados. Não havia espaço para calma, para movimentos lentos.

O gozo estava próximo e ele veio primeiro para Atsushi, que não sabia como avisar Imai de que ia gozar. Apertou uma de suas coxas, como se fosse uma maneira de fazê-lo parar, no entanto ele continuava os movimentos.

Imai havia entendido o recado, mas não queria parar, não via necessidade para isso. Queria sentir Atsushi, sentir o gosto de Atsushi. Continuou a sugá-lo mesmo depois que sentiu o líquido quente invadindo-lhe a boca.

Aquele gosto, os lábios de Atsushi, o cheiro, o suor. Também não iria mais agüentar. Usou o mesmo sinal que Sakurai usara, para mostrar estava chegando ao ápice, dando a chance de Atsushi acariciá-lo apenas com as mãos se assim quisesse.

Não quis. Pareceu-lhe uma questão de honra sentir Imai gozar em sua boca. E a idéia de como seria aquela sensação fez Sakurai sugar com mais intensidade, mais velocidade, mesmo que se sentisse sufocar.

Ao sentir os primeiros espasmos Imai gemeu, agora livre do pênis de Atsushi, não acreditava que ele iria fazer aquilo. Que iria querer sentir o seu gosto.

Não conseguia mais respirar. Sentia-se tonto, entorpecido pelo próprio gozo, enlouquecido com Imai pulsando em sua boca. O gosto forte invadindo seu paladar, aquele gosto estranho, desconhecido. O gosto de Imai.

Precisava de ar, precisava arfar. Mas só o fez quando ouviu o último gemido de Imai. Permitindo que a sua respiração descompassada se unisse a dele.

Silêncio. Não havia nada além do som de suas respirações e do tagarelar de seus pensamentos.

Imai não acreditava no que acabara de fazer com seu colega de classe, colega de banda. Com o garoto estranho e calado que o costumava seguir. Embora fosse seu plano provar o corpo dele naquele fim de tarde, sequer cogitara a possibilidade de ele querer provar o seu.

Atsushi estava confuso. Havia engolido o sêmen de um homem, acariciado um homem com seus lábios. Não que o problema fosse esse. O problema era o fato de não parecer haver problema nisso. De não lhe parecer errado.

Nenhum dos dois parecia querer se mover. Fosse para se aconchegar no outro ou para afastar-se. Demorou algum tempo até que Imai tomasse a iniciativa, sentando-se na cama. Com Atsushi fazendo o mesmo logo em seguida.

Entreolharam-se. Imai sorriu, espreguiçando-se, encostando levemente sua cabeça no ombro do outro.

“Você beija bem, Sakurai…” Riu.

“Atsushi…”

“Você beija bem, Atsushi…”

***

Atsushi estava sentado à mesa na cozinha de sua casa, vendo Imai andar de um lado para o outro, preparando algo para o almoço. Embora já fosse quase hora do jantar.

Fazia uma semana que o vocalista recebera alta no hospital e desde então Imai não saia de sua casa. Ficava ali, fazendo qualquer coisa, sem deixar Atsushi sozinho um momento que fosse.

Encolheu-se na cadeira, olhando os curativos em suas mãos, apertando-as em punho. Aquilo causava dor, sentia as feridas não cicatrizadas arderem devido à pressão que fazia. E nem aquela dor era suficientemente forte para afastar a angustia que sentia.

“Imai, eu não agüento mais isso!” Exclamou, chamando a atenção do guitarrista. “Por que, por que você me ignora, por que não fala comigo?”

Viu-o lançar um olhar interrogativo, segurando uma faca em uma das mãos e um molho de ervas na outra.

“Você fica andando pela minha casa como se fosse uma assombração, me seguindo, não me deixa sozinho um momento sequer. Ignora totalmente o que aconteceu, não me faz perguntas, não me acusa, não faz nada. Desde quando eu estava no hospital! Por que Imai, por quê?”

A voz de Atsushi soava magoada, suas mãos doíam, e quanto mais aumentava a dor, mais forte as apertava.

Imai respirou fundo e soltou o ar audivelmente, colocando os temperos e a faca em cima da pia, andando na direção do vocalista.

“Ótimo, Atsushi. Eu estou aqui cuidando de você, evitando que você se descontrole e faça algo estúpido de novo e você diz que eu o persigo como se fosse uma assombração.” Disse cruzando os braços, olhando firme para o outro. “Então, se prefiro não fazer perguntas para poupar você da humilhação de tentar explicar o que houve, isso quer dizer que o estou ignorando?”

O olhar de Imai o intimidava. Não conseguia encará-lo. Sentia-se envergonhado pelo que fizera e, conviver assim com o guitarrista ao seu lado só fazia sua vergonha aumentar.

“O que você quer? Quer que eu me sinta culpado pelo que aconteceu? Eu me sinto, acredite. Mesmo sabendo que não tenho culpa, não desse fato em si. Mas a culpa maior é minha, sempre vai ser minha. Fui eu quem começou isso tudo.”

A voz de Imai estava alterada. Não por raiva, não era isso. Ela soava triste, dolorida. Atsushi teve vontade de abraçá-lo forte e pedir desculpas. Desculpas por tantas coisas que sequer sabia dizer por qual queria se desculpar.

“Não é sua culpa. Não é, não se culpe.” Disse levantando-se da cadeira, receoso, acabando com a pouca distância entre eles. “Que direito eu tenho de ter ciúmes de você? Que direito eu tenho de deixar você triste, de prendê-lo aqui cuidando de mim. Sempre cuidando de mim…” Murmurou erguendo uma de suas mãos para afagar o rosto de Imai.

“Nenhum direito” O guitarrista falou baixo, descruzando os braços. “Imagine se eu me cortasse toda vez que visse você com uma vadia pendurada no pescoço… Eu já teria morrido se me desse ao direito de ter ciúmes.”

“Ah Imai…” Atsushi disse antes de abraçar o amigo, apertando-o em seus braços. “Seria errado se eu dissesse… que me sentiria feliz se você se desse esse direito?”

Silêncio. Um longo instante de silêncio.

As mãos de Imai subiram tímidas pelas costas de Atsushi. Aquelas costas que antes possuíam fios longos e negros cascateando por elas.

O guitarrista não entendia o motivo de seu coração bater tão forte. Não entendia a vontade de sorrir e chorar ao mesmo tempo.

Realmente, gostava daquele Sakurai. Atsushi. E aquilo, certamente, ainda o mataria.

04
fev
08

Carnaval?

Segunda feira de carnaval e onde diabos está o espírito “carnavalesco”?

Deve ter ido embora junto com o espírito de Natal e com o espírito de  todas as outras comemorações.

Não sei se é a idade ou o que, mas mais e mais as datas comemorativas não tem passado de dias marcados em vermelho no calendário.

Lembro dos carnavais de outrora. Na infância sempre esperando pela matine de carnaval nos clubes, onde eu invariavelmente era uma índia ou uma cigana.

E como me divertia. Nem que fosse com a inocente brincadeira de juntar o máximo de confetes e  serpentina no chão.

Depois vieram os carnavais de rua, quando eu já era quase uma mocinha, ainda seguindo com a indumentária de cigana que por vezes mais parecia uma mulher pirata.

Mas o mais divertido nessa época já nem era o meu carnaval. E sim o carnaval dos meus vizinhos.

Mamãe os maquiava como damas. E que vaidosas eles eram, não queriam aquela maquiagem escrachada. Queriam ficar bonitas, meninas da noite.

Eu achava aquilo divino. Meus vizinhos adolescentes bonitinhos se transformando em putas ditosas com vestidos roubados das mães. Incrível como meus olhinhos brilhavam ao ver o vizinho loiro e cabeludo num pequeno vestido vermelho…

Bons tempos esses. Até que os carnavais de rua se acabaram por aqui, uma das minhas primeiras tristezas carnavalescas.

Já não tinha mais onde pular, não tinha mais meus vizinhos vestidos de mulher, contudo ainda haviam as transmissões pela TV.

Não que fosse fã de samba, mas sempre achei os desfiles das escolas magnífico.  Varava a noite assistindo, torcendo. E essa emoção só se acabava na quarta feira de cinzas, quando eu ficava na frente da TV com o coração na mão, esperando ansiosamente por cada nota.

Sempre queria que a Mangueira ou a Beija-Flor ganhassem. Eram (são?) as escolas do meu coração. Embora, sensibilizada por um enredo, sempre tivesse uma terceira ou quarta favoritas.

O que não podia, de jeito algum, era a Imperatriz Leopoldinense ganhar. E ela sempre ganhava, para minha tristeza.

Não gostava dessa escola. Achava pomposa demais, técnica demais, sem emoção demais. Nutria uma grande aversão por ela. Sempre assistindo aos seus desfiles com olhos agourentos, torcendo para que um carro enguiçasse, algo queimasse… enfim, para que tudo desse errado. Coisa de mal torcedor.

Então isso também foi passando. De desfiles inteiros, passei a ver só os compactos. Na quarta feira de cinzas ligava a TV apenas no final das apurações.

E agora? Só vi o desfile da Porto da Pedra por saber que conhecidos meus estariam em um dos carros. Não faço idéia dos temas dos Samba Enredo das outras escolas.

O carnaval de rua voltou, mas todos estão velhos demais para isso. Meus vizinhos adolescentes hoje são homens casados, alguns já com filhos. Sérios demais para uma meia fina e um pouco de batom.

Queria ir ao Pop Gay, um espetaculo divertido e curioso, onde elegem uma rainha que pode ser tanto uma Drag quanto uma travesti.  Entretanto, não tenho companhia para ir.

Meu namorado até ofereceu-se para me acompanhar. Só que carnaval não é algo para brincar assim, de dois. Ao menos que a brincadeira seja outra…

Queria reunir os amigos, me perder na folia. Mesmo que não estando no espírito.

Fica apenas um desejo fraco de alguém que se sente gripada e doente, que vê suas férias mais uma vez chegando ao fim, e que vê a cada dia o mundo se tornando um lugar sem cor. Acho que começo a enxergar preto e branco, já que até o carnaval perdeu suas cores para mim.

02
jan
08

De volta a blogsfera

A primeira coisa que me veio a mente quando decidir voltar a blogsfera foi: “Sobre o que escrever?”.

 
Não queria esse blog para ser um diário ou um muro de lamentações. Afinal, tenho outros espaços para fazer ambas as coisas.

 

Muito antigamente, na minha época blogueira, eu usava o blog para falar de diversos assuntos do meu interesse. Além de, claro, ser minha comunicação a distância com muitas pessoas.

 

Agora, quase cinco anos depois, não preciso mais de um blog para me comunicar a distância com conhecidos. Então o que sobra são os temas diversos.

 

Pensando como designer, a idéia de fazer um blog temático me parecia boa. Escrever sobre um determinado assunto visando um público alvo de leitores.

 

Contudo, meus interesses são tantos e vão para tantos campos diferentes, que seria um tanto castrador (uí) me limitar apenas a uma gama de temas.

 

Enfim, esse post é apenas para dizer que aqui falarei um pouco sobre tudo. Cada post abordando um ladinho diferente dessa Anne que vos fala.

 

A Anne designer, a Anne metida a escritora, a Anne pseudo ilustradora, a Anne fã de moda, a Anne cosplayer, a Anne nerd, a Anne que gosta de música, a Anne que curte fofocas e celebridades, a Anne que gosta de coisa de mulherzinha… enfim!

 

Espero com isso atrair públicos diferentes, conhecer pessoas novas e entreter meus amigos.

 

(aguardando por inspiração para começar a fazer posts descentes)

02
jan
08

Todo Vilão é um Limão

Ano novo, blog novo!

A decisão de voltar a ter um blog, com formato de blog mesmo, me acompanhou pelos últimos dias do ano. Então tomei a decisão de começa-lo tão logo 2008 chegasse.

Para meus textos mais pessoais (desabafos inclusos) possuo um Live Journal. Para textos curtos e cotidianos tenho o fotolog. Então qual a necessidade de voltar a ter um blog?

Creio que a necessidade veio por conta do meu grande vicio por blogs. Adoro ler blogs (dos mais variados), mas acabo nunca comentando neles.

Tendo novamente um blog, espero deixar minha opinião e recadinhos nos blogs que leio, além de escrever meus pequenos textos e colaborar com algo para a blogsfera.

Desejem-me sorte e boas vindas.

Longa vida ao blog e feliz 2008!




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